Brasil pode fazer abertura comercial mais ampla e rápida, afirma Trabuco
Presidente do conselho do Bradesco quer discutir ecologia e sustentabilidade ambiental, economia mais justa e inclusiva, mudanças tecnológicas e seus impactos na “convivência civilizatória”
VALOR ECONÔMICO – 20/01/2020 05h00 · Entrevista dada em Davos
O presidente do conselho de administração do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco, participa de Davos pela sétima vez com especial interesse em três discussões: ecologia e sustentabilidade ambiental, economia mais justa e inclusiva, mudanças tecnológicas e seus impactos na “convivência civilizatória”. “Tudo virou algoritmo, dados, estatísticas com a internet das coisas. O mundo novo já chegou.” (DR)
Valor: Que mensagem o sr. está trazendo a Davos sobre o Brasil
Luiz Carlos Trabuco: O Brasil tem conteúdo para apresentar em Davos. Há uma agenda de modernização, melhoria do ambiente econômico, avanços estruturais e conjunturais. Neste início de 2020, somos um país de menor risco e oportunidades crescentes. Voltemos um pouco no tempo para lembrar o fórum de 2019: havia expectativa de mudança, os olhos estavam direcionados para o que aconteceria no Brasil, mas havia muita dúvida sobre a retomada dos negócios. O ano terminou com aceleração do crescimento e criação de empregos. Uma reforma da Previdência forte, embora ainda sem Estados e municípios, foi um sinalizador importante.
Há sobriedade fiscal e não podemos subestimar a potência de uma política monetária pró-crescimento. Chegamos nesse estágio: inflação sob controle e juros muito baixos. Eu destacaria também a MP da Liberdade Econômica. Ela desburocratiza, simplifica, desregulamenta. A narrativa liberal do ministro Paulo Guedes aglutina a confiança na modernização do Estado brasileiro. Tudo isso pavimenta a recuperação cíclica que o Brasil apresentará em 2020 e em 2021, com bases mais sólidas e boas chances de continuidade.
Valor: O ímpeto reformista continua em 2020 ou há uma tendência de acomodação em ano eleitoral?
Trabuco: O ano será dividido em duas partes. No primeiro semestre, chances de avançar nas reformas necessárias. No segundo semestre, as eleições. E aí a política se torna preponderante.
Valor: Não há um congestionamento na agenda legislativa? Que reformas devem ser priorizadas?
Trabuco: A agenda de 2020 é aquela que não foi possível em 2019: as reformas tributária e administrativa. Privatizações são uma meta permanente. A abertura da economia é algo desejável. O acordo comercial Mercosul-União Europeia tem um prazo, e mais abertura ajudaria a posicionar o Brasil no pleito de entrar na OCDE.
Valor: Poderíamos pensar em liberalização comercial mais ampla?
Trabuco: Isso, exatamente. A abertura cria mercados para o Brasil. Não podemos ter medo da nossa inserção no mundo. O comércio é uma estrada de duas mãos e deveria ser cada mais veloz e aberto. Essa tem sido a receita de sucesso de muitas nações.
Valor: A indústria sempre pede que antes haja crédito mais barato, infraestrutura, racionalidade tributária. Uma abertura já não colocaria empresas e empregos em risco?
Trabuco: Pessoalmente, não acredito que ela traga prejuízo ou desvantagem. Não deveríamos estabelecer pré-condições. Mesmo o acordo com a UE, que ainda demora em sua implementação, já melhorou o ambiente. Não há razões para temer a abertura comercial.
Valor: A reforma tributária deve ser ampla ou focar em simplificação? Existe espaço no Congresso?
Trabuco: O Congresso já tem sido um parceiro. As propostas que a Câmara e o Senado elaboraram são um bônus para o governo. Elas testam a predisposição com uma reforma tributária, que começa com simplificação do cipoal de impostos e contribuições para resolver, a médio prazo, o Custo Brasil.
Valor: Imposto único ou um imposto sobre transações digitais seria conveniente nessa reforma?
Trabuco: Eu não tenho condições de avaliar. No fundo, a reforma tributária deveria ter o objetivo de redução da carga sobre o PIB no médio prazo, desonerando empresas e consumidores. A boa notícia é que, como ocorreu com a reforma da Previdência, a conscientização das pessoas e do setor produtivo é cada vez maior.
Valor: Pela terceira vez seguida um ano começa com previsões de PIB acima de 2%.
Nos anos anteriores, como se sabe, houve frustração. Corremos esse risco novamente?
Trabuco: As previsões na faixa de 2,5% são muito razoáveis. O ciclo do crédito se movimentou. Os bancos privados estão liderando a oferta de crédito, tanto na pessoa física quanto na jurídica, com crescimento de dois dígitos. Faz parte do processo de recuperação cíclica, mas o conteúdo das reformas contribui para solidificar o ambiente de confiança e é mais favorável aos negócios.
Valor: O mundo vai ajudar?
Trabuco: A economia global continua crescendo em 2020, a Europa está saindo da sua letargia, a trégua EUA-China envia sinais positivos. Houve um início de ano inusitado [com as tensões no Irã e no Iraque], mas os mercados estão sintonizados para ultrapassar o estresse. É interessante a virada de página na guerra comercial. Eu estava pensando outro dia, acho até engraçado: ela não é guerra e não é sobre comércio. É, no fundo, sobre hegemonia nos próximos 20 anos.
Valor: Apesar dos avanços que o sr. elenca, os investimentos não vieram em peso. O que está faltando?
Trabuco: O sentimento de Davos em 2019 era de esperança com o Brasil. Essa esperança tem avançado para um sentimento de confiança com as entregas da política econômica. As contas públicas apresentam estabilidade na relação dívida bruta/PIB. O juro básico no patamar atual requer um esforço menor do governo. Neste ano, o déficit primário deve ficar em torno de 1% do PIB. Era 2,5% em 2016 e 1,6% em 2018. Isso sinaliza que o déficit primário poderá ficar próximo a zero, sobretudo se o programa de concessões e privatizações deslanchar em 2020 e 2021.
Os investidores estrangeiros são muito cautelosos, mas vemos com clareza a absorção dos papéis de dívida corporativa, há forte demanda por papéis brasileiros nos IPOs colocados. Com confiança, o investimento direto vai chegar. As iniciativas do Ministério da Infraestrutura têm sido robustas e bem organizadas para capturar essa liquidez que o mundo tem.
Valor: Os investidores estrangeiros conseguem separar política e economia, sem colocar em dúvida o futuro da democracia no Brasil?
Trabuco: Eu acho que isso [risco à democracia] não está no cenário. Inclusive as eleições municipais, apesar de multipolarizadas, não terão mais uma disputa carimbada entre direita e esquerda. O eleitor buscará a eficiência, o que o prefeito pode entregar em termos de melhoria da cidade. Temas nacionais não estarão tão presentes.
Valor: Se alguém lhe perguntar em Davos quais são as razões dos protestos na América Latina e se o Brasil pode ser a próxima peça do dominó, como será sua resposta?
Trabuco: O Brasil tem um bônus: forças políticas e sociais, a imprensa, opiniões e ideologias se manifestam livremente. A democracia está amadurecida. É muito saudável. Admitir contrapontos é uma vacina contra o surgimento de protestos violentos. Mas e o Chile? Tem um projeto de país, mas vive um momento de ambiguidade. Mesmo na Argentina e no México, que passaram por eleições recentes e têm presidentes identificados com a esquerda, o perfil fiscalista dos dois até surpreende. Quando perseguem o equilíbrio das finanças públicas, eles se afastam do default e da hiperinflação. A falta de crescimento tem sido uma tônica. Leva à menor geração de empregos e à inquietação das pessoas.
Valor: Então não se pode nem pensar em um novo AI-5, certo?
Trabuco: Isso é tema já vencido. A estrutura dos pesos e contrapesos que o Brasil têm é suficiente para criar uma harmonia até na administração do contraditório.
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