China quer controle sobre a produção global de minério usado em chips
Restrição às exportações foi anunciada anteontem e inclui equipamentos destinados à produção de baterias de carros
Por Washington, O Estado de S. Paulo, 11/10/2025
A tarifa adicional de 100% aplicada pelo governo dos Estados Unidos aos produtos chineses foi uma resposta às restrições que o país asiático impôs às exportações de metais de terras raras – material utilizado para produção de semicondutores e outras tecnologias.
As novas regras, que foram divulgadas pela China na quinta-feira e devem entrar em vigor em 1.º de dezembro, são a mais recente medida do governo de Pequim para controlar os metais de terras raras e explorar o domínio da China no setor. No mesmo dia, o país asiático anunciou que, a partir de 8 de novembro, também restringirá as exportações de muitos tipos de equipamentos necessários para a fabricação de baterias para carros elétricos, em uma tentativa de proteger a vantagem competitiva da China na indústria automotiva.
As regras sobre terras raras podem afetar as cadeias de abastecimento de algumas das maiores empresas do mundo, incluindo a Nvidia e a Apple. As terras raras são essenciais para a produção de chips e para fabricar os ímãs utilizados em motores elétricos, drones, robôs industriais e turbinas eólicas, por exemplo.
O Ministério do Comércio da China afirmou em comunicado que as medidas eram necessárias para impedir que metais de terras raras fossem usados em tecnologias com possíveis aplicações militares.
A China refina todo o samário do mundo, um metal de terras raras usado pelos EUA para fabricar caças F-35 e uma ampla gama de mísseis. O ministério afirmou que as exportações de terras raras para fornecedores militares no exterior “não serão aprovadas”.
A China extrai e processa a grande maioria das terras raras do mundo. As regras proíbem a transferência da China de qualquer equipamento ou informação que ajude outros países a estabelecer sua própria produção de terras raras ou ímãs de terras raras.
Empresas nos EUA e na Europa têm trabalhado para estabelecer meia dúzia de fábricas para a produção de ímãs de terras raras, e essas fábricas, em sua maioria, já receberam os equipamentos necessários. Mas pode levar até três anos para que elas atinjam sua capacidade máxima de produção.
‘JOGO DURO’. “A China está jogando duro”, disse Jimmy Goodrich, pesquisador sênior do Instituto de Conflitos Globais e Cooperação da Universidade da Califórnia. A medida “pode posicionar Pequim para ter controle total da cadeia de suprimentos global de inteligência artificial e eletrônicos modernos”, acrescentou.
A China restringiu as exportações de terras raras para os EUA em abril, em resposta às tarifas impostas por Trump. Pequim também restringiu as exportações de ímãs de terras raras para a Europa, ao mesmo tempo que exigiu a isenção das tarifas europeias sobre os seus carros elétricos.
Autoridades da União Europeia estão “preocupadas” com as últimas restrições, disse Olof Gill, porta-voz da Comissão Europeia. “A comissão espera que a China aja como um parceiro confiável e garanta acesso estável e previsível a matérias-primas essenciais.”
A China refina 99% do disprósio mundial, um tipo de terra rara usada em chips para preservar a estabilidade magnética mesmo quando eles ficam quentes. Nos últimos anos, a Nvidia e outros fabricantes de semicondutores mudaram o material usado em dispositivos de gerenciamento de eletricidade, chamados capacitores, nos chips para torná-los mais resistentes ao calor. Os capacitores são feitos de disprósio ultrapuro. Uma única refinaria em Wuxi, perto de Xangai, produz todo o suprimento mundial desse metal.
Pequim denuncia há muitos anos a “jurisdição de longo alcance” dos Estados Unidos, que exige que outros países não enviem para a China muitos tipos de chips de computador fabricados com tecnologia americana. Com as regras emitidas na quinta-feira, a China agora virou o jogo contra os Estados Unidos.
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