O império do dólar e seu maior inimigo
O maior risco à hegemonia do dólar, que ainda sustenta a supremacia econômica americana no mundo, não vem dos arranjos do Brics ou quaisquer outros, mas da própria Casa Branca
Por Notas & Informações, O Estado de S. Paulo, 27/07/2025
Desde a criação do sistema internacional que organizou a economia global depois da 2.ª Guerra, articulada na Conferência de Bretton Woods, em 1944, o dólar americano ocupa o centro do sistema financeiro internacional. A combinação de poder econômico, estabilidade institucional e domínio geopolítico garantiu à moeda dos Estados Unidos um status sem paralelo: principal meio de troca global, reserva de valor preferencial e instrumento decisivo de influência internacional. Mas essa supremacia construída ao longo de oito décadas é hoje alvo de uma ofensiva inesperada: não de Pequim, Moscou ou, muito menos, Brasília – mas do próprio presidente americano.
A reação virulenta do presidente dos EUA, Donald Trump, a qualquer sugestão de substituição do dólar por alternativas regionais – como as aventadas no Brics – revela mais do que uma atitude protecionista. Ela expõe o fato incômodo de que a moeda americana é hoje o principal resquício da supremacia econômica dos EUA do pós-guerra. Desde a década de 1990, os EUA vêm perdendo participação relativa na produção industrial e no comércio mundial. Em 1990, o país respondia por cerca de 21% do PIB global em paridade de poder de compra; hoje, responde por pouco mais de 14%. A China já é a maior potência industrial e o maior exportador do mundo. O que resta de incontestável é o dólar – e por isso mesmo Trump o protege com garras afiadas.
Não se trata, no entanto, de uma proteção racional. Paradoxalmente, é o próprio Trump quem mais ameaça a hegemonia do dólar. Ao adotar políticas fiscais irresponsáveis, atacar a independência do Federal Reserve (o banco central dos EUA), romper consensos internacionais e transformar tarifas em instrumento de retaliação pessoal, o presidente enfraquece as bases de confiança que sustentam a moeda americana. Investidores estrangeiros já demonstram desconforto: o dólar caiu cerca de 10% desde o início do ano, mesmo em meio a choques globais – o oposto do que costuma ocorrer com uma moeda refúgio.
Os exemplos se acumulam. Em julho, Trump ameaçou impor tarifas de 50% contra o Brasil em represália ao julgamento de Jair Bolsonaro, e lançou sanções contra ministros do Supremo Tribunal Federal. Ao fazê-lo, minou a confiança na previsibilidade jurídica dos EUA. Ao mesmo tempo, sugeriu a demissão do presidente do Fed, Jerome Powell, e flertou com a ideia de tributar ativos americanos detidos por estrangeiros. Tudo isso num momento em que o déficit público se aproxima de 7% do PIB e a dívida bruta supera os US$ 35 trilhões – condições que tendem a ser agravadas pelo “grande e belo” pacote fiscal de Trump recém-aprovado pelo Congresso. A combinação de desordem nas contas públicas, instabilidade institucional e nacionalismo econômico é tóxica para a credibilidade de qualquer moeda.
Ainda assim, o dólar segue dominante – mas por falta de alternativas. O euro permanece limitado por entraves fiscais e políticos; o yuan chinês sofre com controles de capital e opacidade institucional. Moedas digitais de bancos centrais, como o projeto do Brics Pay, ainda estão em fase experimental. Quase 90% das transações cambiais e 60% das reservas cambiais globais envolvem o dólar. O mundo pode estar insatisfeito com essa dependência, mas não encontrou substituto à altura.
Essa força relativa, porém, não garante eternidade. O privilégio exorbitante de emitir a moeda reserva do mundo exige contrapartidas: estabilidade, previsibilidade, respeito ao Estado de Direito e responsabilidade fiscal. Ao desprezar esses pilares, Trump sabota aquilo que pretende proteger. Se a confiança no dólar ruir, o impacto será global – e o maior responsável não será o Brics, mas a própria Casa Branca.
Como qualquer hegemonia, a monetária não é ideal, mas, na prática, um mundo sem a dominância do dólar reinante até aqui pode ser menos eficiente, mais fragmentado e mais vulnerável a choques. É possível que vejamos o surgimento de blocos cambiais regionais, moedas digitais interoperáveis e redes financeiras alternativas. Mas essa transição, se ocorrer de forma abrupta e desordenada, terá custos imensos. O dólar ainda reina – mas seu trono nunca esteve tão ameaçado por quem dele mais se orgulha.
ARTIGO1305
