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Presidente merece Nobel se fizer parte mais difícil do plano

Por Thomas L. Friedman, – The New York Times, O Estado de S. Paulo, 12/10/2025

Espero que, se a primeira fase do cessar-fogo em Gaza, liberação de reféns e troca de prisioneiros ocorrer conforme o planejado, Donald Trump seja coberto de elogios – por três razões que poderiam impactar o Oriente Médio e os EUA.

Primeiro, porque chegar a este ponto foi difícil. Foi necessário um gambito geopolítico que precisava chacoalhar e ganhar a confiança de Israel, Hamas, Catar, Turquia, Autoridade Palestina, Arábia Saudita, Egito e Emirados Árabes Unidos, antes de chegar em Gaza.

Parabéns ao presidente e sua equipe por orquestrar isso.

Segundo, esta é a primeira etapa de um plano multietapas. Se Trump assumir a parte inicial e ganhar elogios, isso deve garantir que ele permaneça engajado para impulsionar as etapas posteriores. Elas são mais difíceis e exigirão que Trump fique totalmente engajado. Presidente, talvez você não tenha interesse na história palestina ou judaica, mas ambas têm interesses em você.

Preocupo-me que Trump não respeite totalmente a complexidade da tarefa que seu governo assumiu. Estamos falando sobre a construção completa de uma nação em Gaza, praticamente destruída, lar de cerca de 2 milhões de pessoas deslocadas. Com uma equipe de segurança nacional pequena, Trump terá de supervisionar o desarmamento do Hamas, o recrutamento e desenvolvimento de uma força de segurança multinacional para preencher o vácuo quando Israel se retirar, a reconstrução de Gaza do zero e a formação de um governo de transição. Tudo isso sob o olhar de um governo israelense que desconfia que o Hamas se reagrupará.

Trump disse ao seu gabinete na quinta-feira, com a propensão para o exagero: “Acabamos com a guerra em Gaza e, em uma escala muito maior, criamos a paz… Esperamos que seja uma paz duradoura no Oriente Médio”. Espero que ele não acredite de verdade nisso, porque terá de trabalhar em Gaza pelo resto de seu mandato.

Dito isso, se for bem-sucedida, a implementação das etapas mais difíceis traz a promessa de reviver a possibilidade de uma solução de dois Estados sob uma fórmula nova – que combine a administração palestina, árabe e internacional sobre o futuro de Gaza. Se funcionar, o acordo poderá um dia ser estendido à Cisjordânia.

Acho que a equipe de Trump criou um novo modelo intrigante para lidar com o futuro dos dois territórios ocupados, porque israelenses e palestinos não conseguem mais resolver seu conflito sozinhos. Após a guerra de Gaza, não resta mais nenhuma confiança entre eles. Se a implementação desse plano de paz reconstruir um caminho para a paz, isso seria digno do Prêmio Nobel da Paz. Talvez até dois.

IMPACTO INTERNO. A terceira razão pela qual espero que Trump receba o devido crédito por elaborar esse plano não tem nada a ver com o Oriente Médio. É por uma esperança, provavelmente em vão, de que isso possa realmente inspirar Trump a fazer a paz também nos Estados Unidos.

“Bem-aventurados os pacificadores”, escreveu Trump nas redes sociais. Eles certamente são, presidente, e agora que você trouxe um pouco de paz a Gaza, demonstrando respeito e construindo confiança com todas as partes – você até conseguiu que um inimigo de longa data dos EUA, o Hamas, confiasse em você –, tente usar a mesma diplomacia em casa.

Em vez de tornar os EUA tão divididos quanto Gaza, acusando os adversários políticos com base em acusações frágeis e se gabando de que “odeia seu oponente”, como fez no memorial de Charlie Kirk, por que não nos surpreende com algo positivo: convide os líderes democratas para Camp David e diga ao mundo que não sairá de lá sem um tratado de paz entre americanos? Lembre-se: você venceu. É o presidente. Dê um exemplo positivo e supere todas as suas queixas pessoais.

Faça isso em casa e sua popularidade disparará. Não faça esse plano para Gaza ser uma nota de rodapé de uma presidência fracassada.

Para isso, espero que Trump reflita sobre como conseguiu o acordo no Oriente Médio. Seu estilo de negociação diplomática é bastante incomum. Quando se tratava de buscar a paz em Gaza, Trump não estava interessado na política de culpar adversários ou lançar apelidos humilhantes a uma das partes, incluindo Israel, Catar, Arábia Saudita e Emirados Árabes.

Ele estava interessado em chegar a um acordo com quem poderia fazer isso acontecer e aproximá-lo do Nobel da Paz. Em uma região onde poucos líderes não têm sangue nas mãos ou prisioneiros políticos na cadeia, Trump é um alívio bem-vindo em relação aos presidentes democratas. Ele não dá a mínima para o histórico de direitos humanos de nenhum desses atores. Mas também não estava disposto a aceitar as desculpas habituais de que a política interna não lhes permitia fazer concessões.

A abordagem de Trump foi: se for o que quero e preciso, você é ótimo; se atrapalhar os planos, vou fazer você pagar. Os democratas, de modo geral, não são tão bons em combinar indiferença moral com diplomacia coercitiva pela paz. É algo natural para Trump. Os líderes do Oriente Médio o veem como um dos seus.

Tanto o Hamas quanto o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, de Israel, encontrarão uma maneira de dizer que esse resultado é uma grande conquista, mas não é o resultado que eles buscavam.

RESULTADOS. O Hamas iniciou essa guerra em 7 de outubro de 2023, em parte para destruir um plano de Joe Biden que começou com a reforma da Autoridade Palestina na Cisjordânia – arquirrival do Hamas, que abraçou os acordos de paz de Oslo. Essa reforma, no plano de Biden, deveria abrir caminho para negociações com Israel sobre uma solução de dois Estados e, em troca, a Arábia Saudita normalizaria as relações com Israel, e os EUA e a Arábia Saudita assinariam um tratado de segurança.

O Hamas e o Irã não queriam ver nenhum progresso palestino em direção a um acordo de dois Estados liderado pela Autoridade Palestina, muito menos a normalização entre Israel e a Arábia Saudita. Teriam ficado muito isolados. Agora, ambos estão isolados e militarmente devastados.

Ao mesmo tempo, Netanyahu travou essa guerra porque esperava ter o controle eterno de Gaza por Israel, por meio de algum tipo de forças locais colaboracionistas que não incluíssem nem o Hamas nem a Autoridade Palestina – a alternativa lógica ao Hamas. Bibi buscou constantemente deslegitimar a AP porque não queria um único órgão moderado de negociação palestino que pudesse representar os palestinos tanto na Cisjordânia quanto em Gaza. Isso teria levado a uma pressão global para negociar uma solução de dois Estados.

Com Trump, Bibi conseguiu exatamente o oposto. O plano de Trump não promete a criação de um Estado palestino, mas estipula que, se o redesenvolvimento de Gaza avançar e o programa de reforma da Autoridade Palestina for executado, “as condições podem finalmente estar reunidas para um caminho crível para a autodeterminação e a criação de um Estado palestino”.

Netanyahu jogou a favor de Trump ao se colocar inteiramente nas mãos dele.

Ao longo do último ano, ao perseguir sua política de terra arrasada em Gaza, Bibi mandou o mundo, a Europa, os democratas, os judeus americanos liberais, os aliados árabes de Israel e até mesmo os republicanos moderados se danarem. Colocou o destino de Israel inteiramente nas mãos de Trump – pensando que, quando ele apresentou seu primeiro plano para Gaza, para tirar todos os palestinos do território e transformá-la em uma nova Riviera –, o americano lhe dera carta branca para arrasar Gaza.

Mas quando os árabes e os aliados europeus dos EUA, e Tony Blair, intervieram e fizeram Trump voltar a um processo de paz real – declarando que Israel não poderia anexar Gaza ou a Cisjordânia – Netanyahu não tinha mais nenhuma alavanca para puxar.

Foi isso que nos trouxe até aqui. E por que “aqui” é tão importante? Um membro da equipe de negociação israelense em Camp David em 2000, Gidi Grinstein, explicou bem em um e-mail que me enviou: o plano de 20 pontos de Trump oferece uma oportunidade crucial não apenas para levar paz a Gaza e libertar os reféns, mas para “restabelecer os princípios fundamentais de longa data do processo diplomático israelo-árabe e israelo-palestino desde os Acordos de 1978-79”.

Como assim? Trump estabeleceu, explicou Grinstein, “que não haverá anexações unilaterais em Gaza ou na Cisjordânia; que uma Autoridade Palestina atualizada e reformada será o órgão autônomo dos palestinos”. E o horizonte político, continuou, inclui um aceno de Trump ao direito do povo palestino à autodeterminação, o que, escreveu Grinstein, “significa efetivamente alguma forma de separação política entre Israel e os palestinos”.

Como eu disse, apenas parar esta terrível guerra em Gaza já é digno de elogios. Mas levar todo o plano adiante seria digno de entrar para a história e ganhar prêmios Nobel. E fazer com que Trump perceba o que o tornou eficaz no Oriente Médio – governar pela adição, não pela divisão – tornaria-o, na verdade, um presidente muito melhor em seu país. Isso seria algo milagroso.

ARTIGO1312

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