A roleta do pregão
Por Fábio Gallo, O Estado de S. Paulo, 11/10/205
O mercado financeiro oferece muitas oportunidades de investimento, com graus variados de risco – e o investidor comum acaba ficando sem saber o que fazer dada a diversidade e a complexidade dos produtos. Como solução, busca ajuda na internet, com influencers, ou com gerentes de conta e consultores de bancos. Resultado: muita gente tem perdido muito dinheiro com aplicações que pareciam boas. Os palpiteiros de plantão, vendedores de ilusão, por outro lado, ganham muito com comissões e salários. Como na época da corrida ao ouro nos EUA, quem ganhou muito dinheiro foram os vendedores de pás, picaretas e equipamentos de garimpo.
Nesta semana, muitos investidores foram pegos de surpresa com a notícia de que os COEs (Certificados de Operações Estruturadas) lastreados em dívidas da Braskem e da Ambipar eram objeto de liquidação antecipada e que as perdas seriam enormes.
No caso dos COEs da Ambipar, a perda foi de aproximadamente 93%, no da Braskem, entre 63% e 74% – perdas em um tipo de produto vendido como investimento seguro. Há muitos estudos mostrando que produtos que focam em ativos financeiros que misturam ações, futuros e classes distintas de ativos geram perdas disseminadas para os mais ousados – ou incautos.
Um desses estudos é de Fernando Chague e Bruno Giovannetti (na RBFin, 2025), que pesquisaram todas as operações de day trade em contratos futuros no Brasil de 2017 a 2023, a partir de dados da CVM. No auge da pandemia, eram cerca de 100 mil pessoas por dia fazendo day trade; quase um milhão de indivíduos operaram pelo menos uma vez entre 2020 e 2023. O resultado é que as perdas diretas foram de R$ 9,9 bilhões, entre março de 2020 e o final de 2023, o que dá uma perda média de R$ 10,2 mil por indivíduo – isso sem contar os custos de corretagem, emolumentos, cursos etc. Nesse período, 96% dos dias foram negativos para as pessoas físicas. O que se viu é que essa atividade funciona mais como transferência persistente de recursos de pessoas físicas para instituições de mercado. Na Índia, maior mercado de derivativos de ações do mundo em volumes (por número de contratos), o número de day traders triplicou em quatro anos, sendo que 70% perderam dinheiro, com maior incidência entre jovens e quem opera com altíssima frequência.
A atuação dos influenciadores, o baixo conhecimento e a gamificação ativam os vieses comportamentais que explicam por que as pessoas continuam perdendo dinheiro nesse tipo de operação. O fato é que muitos nesse mercado vendem vento, entregam vendaval, e as pessoas compram e pagam caro. É o tipo de sonho de realização rápida, mas com perda garantida.
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