As tarifas
Por Gustavo H. B. Franco, O Estado de S. Paulo, 27/07/2025
EX-PRESIDENTE DO BANCO CENTRAL E SÓCIO DA RIO BRAVO INVESTIMENTOS
Não era para estar acontecendo nada disso. Talvez já estivesse encomendado; os historiadores, no futuro, vão dizer.
Em 1985 os EUA tiveram um problema parecido – problema que era deles e de todos nós – e a solução foi bem diferente.
Numa descrição muito simplificada, era uma questão de balanço de pagamentos. Eles exportam títulos de sua dívida pública para compor as reservas internacionais do mundo inteiro. Eles abastecem o planeta, quando se trata de liquidez e de moeda para o comércio exterior, e derivam múltiplas vantagens dessa situação. A esse respeito, os franceses inventaram uma expressão muito bem achada: “privilégio exorbitante”.
Já se escreveu muito sobre isso e acho que dá para dizer que todos concordam que só é possível para a “economia central” executar esse papel de pulmão da economia global se mantiver um superávit em conta corrente numa base firme e sustentada, o que não é difícil se a sua produtividade cresce mais do que no resto do mundo.
Mas e se a “economia central” fraqueja em matéria de produtividade e começa a ter déficits em conta corrente? E se a exportação de seus títulos incentiva o desequilíbrio fiscal?
Um episódio de 1985 que vale lembrar, pelo que ensina sobre o que temos hoje, é o que se conhece como o Acordo do Plaza, o hotel em Nova York onde rolou a conversa.
Os americanos precisam se entender com os chineses, o Brasil não é parte disso
Naquela ocasião o dólar estava muito forte, o déficit comercial americano muito grande e o interesse de todos era em um dólar mais fraco (mais desvalorizado). Era o que ajustava o resultado do comércio dos EUA às suas exportações de capital.
Mas a “economia central” não consegue desvalorizar a sua moeda do mesmo jeito que uma economia periférica. Tamanho faz diferença. Para uma moeda internacional de reserva ficar mais fraca em relação às outras, é preciso que os gestores das outras concordem em que suas moedas fiquem mais fortes, menos competitivas.
Pois em 85 no Plaza houve acordo para “alinhar” as moedas internacionais de reserva, pelo qual o dólar ficou mais fraco e o iene e o marco alemão ficaram mais valorizados.
Seria possível haver algo parecido agora, que temos o mesmo problema? Não se faz mais intervenção cambial como naquele tempo. E agora, os chineses estão na posição em que estavam japoneses e alemães. Será que topam conversar?
Diante disso, os americanos optaram por um protecionismo tóxico, o dólar já enfraqueceu uns 10% e os EUA perderam o AAA.
Os americanos precisam se entender com os chineses, o Brasil não é parte de dessa conversa e não tinha que estar sofrendo com isso.
ARTIGO1292
