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Cinco realidades sobre o novo Oriente Médio

Dinâmica regional favorece trégua; estabilidade depende de plano para dois Estados

Por Fareed Zakaria, O Estado de S. Paulo, 11/10/2025

Donald Trump é frequentemente chamado de “presidente transacional” e, esta semana, essa apropriada descrição levou ao sucesso. O cessar-fogo negociado entre Israel e Hamas foi uma transação, e ainda por cima complicada. Vale a pena mencionar que esta é apenas a primeira fase e pode fracassar ou emperrar se as partes renegarem seus compromissos.

Mas a primeira fase é, de fato, um caminho plausível para pôr fim à terrível violência em Gaza e representa uma oportunidade que vale correr o risco. Ela revela cinco realidades importantes sobre o Oriente Médio hoje.

Primeiro, Israel está em uma posição de comando e força. Dan Senor, analista e autor republicano, observou em meu programa na CNN, na semana passada, que o acordo era um plano israelense, ou pelo menos um plano americano com o qual os israelenses poderiam conviver. Israel é o poder em campo e se tornou mais poderoso nos últimos dois anos, ao derrotar uma série de seus inimigos externos. Nada acontecerá sem o seu consentimento. Na prática, se você quer que as armas de Israel parem de ser disparadas, precisa de um plano que Israel aceite.

De fato, a ascensão de Israel foi tão dramática que tanto o Catar quanto a Arábia Saudita começaram a se posicionar cautelosamente contra essa força – Doha buscou garantias militares de Washington e Riad assinou um pacto de defesa mútua com o Paquistão, uma nação com armas nucleares.

Em segundo lugar, é possível obter concessões de Israel, mas isso exige capital político e habilidade. Trump usou ambos de forma inteligente para convencer o primeiro-ministro, Binyamin Netanyahu, a aceitar o acordo. Trump tem enorme capital político com os israelenses e o usou para pressionar Netanyahu. Ele aproveitou o momento em que o ataque israelense aos negociadores do Hamas em Doha gerou muita repercussão na região. E aproveitou a aceitação parcial do Hamas ao plano e fingiu que era uma adesão total – mesmo com a oposição de alguns israelenses –, forçando o fechamento do acordo.

ATORES. Terceiro, você vê nas negociações a realidade do novo Oriente Médio. Veja quem estava na sala de negociações para o acordo: egípcios, turcos, israelenses, catarianos e americanos, além do Hamas. Os egípcios são importantes apenas neste contexto específico por causa de sua fronteira com Gaza e da passagem de Rafah, que é um corredor fundamental para o influxo de ajuda humanitária para Gaza. Sua presença remonta à antiga ordem do Oriente Médio, dominada por países grandes, populosos e culturalmente ricos.

O novo Oriente Médio é dominado por Israel e pelos Estados do Golfo. Em nenhum lugar isso é mais evidente do que na ascensão do Catar, um pequeno país rico em gás, com apenas 400 mil cidadãos, mas com uma liderança astuta e disposta a dialogar com todas as partes, incluindo Irã e Hamas, tornando-os indispensáveis em qualquer mediação de conflito.

Enquanto o antigo Oriente Médio era liderado por grandes Estados que defendiam o pan-arabismo e incentivavam o terrorismo palestino, os reinos do Golfo buscam modernidade, avanço tecnológico e, acima de tudo, paz e estabilidade. A Turquia é o novo curinga, forte, mas governada por um líder obstinado que flertou com o radicalismo islâmico.

DECLÍNIO IRANIANO. Em quarto lugar, o novo Oriente Médio é aquele em que a ameaça iraniana enfraqueceu. Desde a Revolução Islâmica de 1979, os Estados árabes se preocupam com um Irã expansionista e ideologicamente agressivo.

Mas, nos últimos 15 anos, aproximadamente, o Irã tem enfrentado dificuldades econômicas e sido periodicamente convulsionado por crises políticas, desde o “movimento verde” até os protestos generalizados do movimento feminista e as divisões dentro de sua elite governante.

O Irã enfrentou ainda uma série de ataques israelenses devastadores contra seus cientistas nucleares, líderes militares e instalações nucleares, culminando nos ataques de j unho, tão abrangentes que quase se assemelharam a uma invasão.

Por fim, apesar de toda a violência, extremismo e animosidade, não há realmente nenhum plano de longo prazo que não termine com uma solução de dois Estados. O veterano diplomata americano Martin Indyk, apaixonadamente pró-Israel e também a favor de um Estado palestino, escreveu um ensaio na Foreign Affairs, no ano passado, alguns meses antes de morrer, intitulado A Estranha Ressurreição da Solução de Dois Estados. Ele argumentou que décadas de abandono desse objetivo apenas provaram que não há alternativa. Todas as outras possíveis – ocupação contínua, um Estado, expulsão – não funcionam. As pessoas, relutantemente, retornarão a ele.

Mas isso só acontecerá agora se Trump assumir pessoalmente e investir seu poder e energia. Seu plano faz uma breve referência a isso. Mas, ao anunciar o cessar-fogo, ele esperava não apenas isso, mas uma “paz eterna”. Isso exigiria mais do que uma transação, exigiria visão. Os frutos dessa visão – paz genuína e duradoura – ecoariam pela história e constituiriam um prêmio muito maior do que aquele concedido pelo Nobel todo mês de outubro.

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