Contra o populismo, a educação
Se o populismo prospera onde a ignorância impera, superá-lo requer o inverso. Educação e informação são o melhor remédio contra a doença do trumpismo, do bolsonarismo e do lulopetismo
Por Notas & Informações, O Estado de S. Paulo, 24/08/2025
O populismo prospera onde a ignorância impera, informa uma máxima que traduz a natureza dos líderes populistas, aqueles que agem a partir do princípio de que o povo liderado é ignorante e acrítico, incapaz, portanto, de discernir o falso do verdadeiro em matéria de política. Não é por outra razão que um dos seus truques é repetir mentiras incansavelmente até que sejam aceitas como verdades. É o que fazem populistas de caráter reacionário, radical e autocrático, como Jair Bolsonaro e Donald Trump, ou aqueles que se apresentam, como Lula da Silva, como mágico de quermesse, o tipo de demagogo incorrigível que acredita que ele e seu partido detêm o monopólio da sensibilidade social e que conseguem transformar o Brasil pela simples expressão de seu desejo – não sem a providencial ajuda do estatismo, do clientelismo e do palanque como forma de governar. São líderes que imaginam reconstruir o país que presidem: Trump e Bolsonaro como orgulhosos agentes do caos e da destruição da ordem vigente; Lula, como seu infalível reinventor.
Mas, se o populismo prospera onde a ignorância impera, sua superação requer o inverso: conhecimento, informação, educação. Sociedades bem informadas ainda constituem a melhor prescrição contra a disseminação desse tipo de patologia política. Classificar populistas como malucos, idiotas, delirantes, mentirosos ou fascistas pode ser politicamente útil para atiçar ânimos, mas nada esclarece sobre a natureza desse populismo e de seus efeitos danosos. É preciso que a sociedade tenha informação suficiente para identificar o autoritarismo e defender-se das armadilhas do populismo.
Em outras palavras, é preciso reformar os sistemas cuja disfunção gera e alimenta o populismo. Do ponto de vista de princípios de gestão, a fórmula inclui responsabilidade social combinada com responsabilidade fiscal, modernização administrativa, republicanismo e pluralismo, combate a privilégios e visão de futuro conectada a oportunidades globais. E do lado da sociedade, o que fazer?
David Brooks, colunista do jornal The New York Times, fez recentemente essa pergunta num artigo intitulado America’s New Segregation, ou A nova segregação dos EUA. No momento em que muitos consideram que a democracia americana está sob ameaça, Brooks se questiona: “O que um cidadão pode fazer para ajudar a colocar os EUA num caminho mais saudável?”. Para ele, um problema em especial aflige seu país: a segregação. Não só a segregação racial, mas também segregação de classe e, em particular, a segregação educacional. É ela que alimenta o apetite populista e aprofunda os conflitos que reforçam o trumpismo.
Segundo Brooks, para resistir será preciso tratar a doença, e não o sintoma. O sintoma é o populismo; a doença é a forma como, segundo ele, “nossas sociedades se segregaram em sistema de castas, nos quais toda a oportunidade, respeito e poder estão concentrados na casta educada”. Em outras palavras, sem ampliar as oportunidades para os menos privilegiados, dificilmente conseguiremos escapar da maré populista atual.
Se tal premissa é verdadeira para os EUA – onde uma reforma educacional fracassou e o atual presidente não só sabota a educação pública, como trabalha para desmontar a burocracia federal nessa área –, parece igualmente real para o Brasil, que há décadas patina no campo educacional, com efeitos nefastos na desigualdade, no padrão de desenvolvimento, nos ganhos de produtividade e nos níveis de educação política de sua população.
Mas aqui, como lá, não se pode culpar o eleitorado, sobretudo quando os partidos e os líderes oferecem tão somente tons distintos de populismo, preconceito e, por que não dizer, sandice. Se não formos capazes de romper o ciclo perverso que condena parcela significativa do País à falta de oportunidades, e se não conseguirmos apresentar alternativas factíveis à oferta populista, seguiremos capturados na armadilha em que estamos, premidos entre um ex-sindicalista demagogo e um golpista desqualificado.
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