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Escola despreparada para a IA

Pesquisa mostra que 70% dos alunos do ensino médio já usam IA, mas poucos recebem orientações. Sinal de que o País precisa se preparar para melhor usar a tecnologia na educação

Por Notas & Informações, O Estado de S. Paulo, 07/10/2025

Sete em cada dez estudantes brasileiros do ensino médio utilizam ferramentas de inteligência artificial (IA) para realizar pesquisas escolares, mas apenas 32% afirmam ter recebido orientações sobre como usá-la, mostrou a pesquisa TIC Educação 2024, realizada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br) e apresentada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil. No caso dos alunos do ensino fundamental, o porcentual de orientação recebida é ainda menor: 19% nos anos finais e 11% nos anos iniciais. Em suma, há muito uso de IA entre os jovens alunos brasileiros e pouquíssima mediação de professores, pais e especialistas – uma combinação preocupante quando se trata da tecnologia associada à educação.

A pesquisa revelou também que os estudantes usam vídeos publicados em redes sociais como fonte de informação e, pela primeira vez, esses canais e aplicativos, como TikTok e YouTube, são tão relevantes quanto navegadores de busca tradicionais na realização de pesquisas escolares. A transformação é acelerada, informam os dados da pesquisa, o que exige uma revisão de ideias e preconceitos. Durante muito tempo educadores, pesquisadores e gestores públicos resistiram à tecnologia no processo educativo – ainda que a humanidade, historicamente, tenha frequentemente depositado na tecnologia a esperança de um futuro libertador para democratizar o conhecimento. A internet, por exemplo, permitiu conectar o mundo, escancarar a janela da informação e assegurar benefícios aos atuais e futuros cidadãos. Não sem efeitos colaterais graves, como o vício em telas, a dependência da tecnologia, a perda de habilidades cognitivas, o controle dos algoritmos, a ansiedade e os perigos para a infância e a adolescência no vasto mundo da web e das redes sociais.

O desenvolvimento ainda mais acelerado da IA, em tão pouco tempo, aguçou o problema, amplificou as possibilidades e simultaneamente estimulou o debate sobre o uso da tecnologia na educação. Resistir a ela não se tornou uma opção. Um outro estudo, do Fórum Econômico Mundial, sobre o futuro dos empregos, elegeu o uso da IA e do big data como as competências mais importantes no mercado de trabalho de 2030 – um futuro bem próximo, por óbvio. Também são citadas como essenciais, mas menos importantes, alfabetização tecnológica, resiliência, flexibilidade, agilidade, criatividade, liderança, influência social, pensamento analítico e aprendizagem ao longo da vida. Essa tendência tem requerido atenção especial dos sistemas educacionais em todo o mundo, em que o papel do professor, a eficácia das formas mais tradicionais de ensino e mecanismos regulatórios estão no centro da mesa.

Num país de reconhecido atraso educacional e tecnológico, esse debate se torna ainda mais complexo e necessário. A começar por um necessário equilíbrio: não se pode aderir nem à euforia desmedida de tecnólogos, deslumbrados com a evolução acelerada da IA, nem a uma espécie de ceticismo reacionário que resiste a mudanças e tenta frear transformações e possibilidades. É uma linha tênue a separar a preservação de modelos tradicionais que têm contribuído para tornar a escola e a aprendizagem pouco atraentes para os alunos e a busca de ferramentas inovadoras que, se aplicadas com qualidade, podem aperfeiçoar as práticas pedagógicas, desenvolver competências adequadas às exigências do presente, ajudar a melhorar o desempenho dos alunos, ampliar o conhecimento e recuperar o prazer de ensinar e aprender.

Trata-se de um mundo novo diante de um problema antigo. A ausência de mediação, tanto na escola quanto em casa, já ocorreu em outras ondas tecnológicas. E em todas elas a falha está em preparar o velho para o novo. Formar gestores e professores para o seu uso é o elemento faltante e imprescindível nessa história. Afinal, tecnologia mediada por adultos preparados se transforma em objeto de conhecimento; sem isso, é entregar os estudantes ao deus-dará dos riscos, dispersões e desigualdades.

ARTIGO1321

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