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Estudo revela isolamento social do ‘progressismo militante’ no Brasil

Mais escolarizado, mais rico, menos religioso e mais branco, grupo se descola até da ‘esquerda tradicional’ em questões políticas e alimenta disposição populista, indica pesquisa

Por Guilherme Caetano, O Estado de S. Paulo, 12/10/2025

Mais ricos, mais escolarizados e menos religiosos, os progressistas são o grupo ideológico que mais se descola dos demais em questões políticas. E esse isolamento tem ajudado a alimentar o populismo preponderante na ala mais à direita da sociedade. É o que sugere o estudo “Populismo e progressismo no Brasil polarizado”, produzido pela think tank More in Common em parceria com a Quaest. Os pesquisadores fizeram mais de 150 perguntas a dez mil brasileiros de todas as regiões do País para esmiuçar a opinião pública sobre temas políticos.

A pesquisa identificou seis grupos com coerência de opinião e de identidade política – que vai de encontro ao senso comum de um Brasil repartido em dois polos de apoio a Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a Jair Bolsonaro (PL). Os dois segmentos mais numerosos, chamados de “desengajados” e “cautelosos”, representariam 54% da população brasileira e passam ao largo da polarização e não costumam se engajar tanto em questões políticas.

A divisão dos grupos segundo seu tamanho em relação à população do País é a seguinte: progressistas militantes: 5%; esquerda tradicional: 14%; desengajados: 27%; cautelosos: 27%; conservadores tradicionais: 21%; e patriotas indignados: 6%.

Os progressistas militantes aparecem como o segmento mais destoante do restante da população. Eles são definidos por serem mais escolarizados (53% com ensino superior), mais ricos (37% com renda maior que R$ 10 mil), menos religiosos (41%) e mais brancos (57%). Também é o único segmento que se define majoritariamente como progressista (78%), e a maioria tem simpatia pelos partidos de esquerda, PT (39%) e PSOL (16%).

Seu nível de engajamento é alto (71% consideram importante participar de manifestações políticas e 69% conversam com amigos e familiares sobre política). E sua preocupação se volta sobretudo à luta contra as desigualdades e as opressões de raça e gênero. Enquanto que para os demais segmentos valores como família e fé são preponderantes, para os progressistas militantes o valor primordial é a justiça social.

VISÃO DE MUNDO. Os progressistas militantes não apenas destoam dos demais grupos em razão de seu perfil, mas também de sua visão de mundo. Suas respostas em geral estão bem mais à esquerda do que o grupo da esquerda tradicional, que pensa de modo similar aos grupos da “maioria invisível”. Em alguns casos, a distância da taxa de concordância da esquerda com os conservadores e patriotas é até menor do que com os progressistas.

Enquanto o nível de concordância dos outros cinco grupos com, por exemplo, a afirmação de que “menores de idade que cometem crimes devem ir para a cadeia” varia entre 70% e quase 100% – inclusive entre a esquerda tradicional –, a proporção entre os progressistas não chega a 30%.

Questionados se “os direitos humanos atrapalham o combate ao crime”, menos de 5% dos progressistas dizem concordar com a afirmação, enquanto a taxa varia entre 35% e 95% nos demais grupos. A opinião dos progressistas sobre “escolas militares promoverem disciplina e valores morais necessários para uma educação de qualidade” também se isola, com algo próximo de 20%, enquanto a taxa varia entre mais de 50% a aproximadamente 90% nos outros.

Enquanto menos de 10% dos progressistas dizem concordar com a frase “a entrada na universidade deve ser exclusivamente por mérito e não por cotas”, a taxa de concordância dos outros grupos varia entre mais de 40% a cerca de 90%. A confiança dos progressistas na Igreja (menos de 20% ante algo em torno de 50% para os demais) e nas Forças Armadas (menos de 20% ante cerca de 35%) também é bem menor.

PARTICULARIDADES. Os pesquisadores colocam os progressistas militantes e a esquerda tradicional dentro de um espectro progressista, e os conservadores tradicionais e os patriotas indignados no guarda-chuva do conservadorismo. Mas há particularidades nos subgrupos.

Pablo Ortellado, diretor da More in Common, disse que, enquanto a diferença entre os conservadores tradicionais e os patriotas indignados é de intensidade, no progressismo a pauta dita a personalidade de cada um. “Conservadores e patriotas são bem parecidos nas opiniões. Nos grupos focais que fizemos, eles têm discursos muito semelhantes”, afirmou Ortellado. “A diferença é que os patriotas indignados têm identidade mais forte, participam mais da política e se definem mais como bolsonaristas. Na esquerda tem uma diferença principal: os progressistas militantes são mais preocupados com questões de opressão de gênero e de raça do que a esquerda tradicional, que é mais preocupada com desigualdade social.”

Para os pesquisadores, a combinação de uma disposição populista da sociedade brasileira com um progressismo que é mais elitista (mais rico e mais escolarizado) fornece base social ao populismo cultural dos segmentos conservadores. “Esse discurso argumenta que as elites intelectuais nas universidades, nas escolas e na cultura estão tentando impor valores progressistas a um povo que é essencialmente conservador”, diz o relatório.

O estudo define três tipos de populismo – termo que, segundo uma linha da ciência política, descreve o movimento ou a ideologia que emprega o antagonismo entre o povo puro e uma elite corrupta, de maneira geral. O populismo político é o antagonismo do povo com as elites políticas; aparece de maneira transversal em toda a sociedade brasileira; o populismo econômico é o antagonismo do povo com as elites econômicas; é mais presente nos setores de esquerda; e o populismo cultural é o antagonismo do povo com as elites culturais e intelectuais; muito forte nos grupos de direita.

DISTANTES. “Chama a atenção, quando a gente analisa essa estrutura, que o progressismo militante está isolado socialmente. Algumas de suas opiniões são muito distantes das do resto da população”, afirmou Ortellado.

“Eu acho que esse isolamento social, combinado com uma disposição populista no Brasil, cria um apoio social para o discurso populista cultural da direita. A direita é muito populista cultural, está se construindo politicamente com base nisso, e o populismo cultural pega (na sociedade) porque o progressismo é isolado”, destacou o pesquisador.

“O bolsonarismo está muito amparado na denúncia da esquerda enquanto elite. O fato de essa esquerda ter muitos traços de elite ancora, cria uma base social para esse discurso da direita e explica o sucesso do populismo cultural”, acrescentou.

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