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Hora da verdade para Hamas, Israel e Trump

Enquanto americano corre para ter um Nobel, líderes de Israel e Palestina têm futuro político em jogo

Por The Economist, O Estado de S. Paulo, 07/10/2025

Os principais atores da guerra entre Israel e Hamas estão reunidos para negociações no Egito. A agenda imediata é a primeira fase das negociações sobre os mecanismos de libertação dos reféns pelo Hamas em Gaza. Mas muitas pessoas, incluindo a maioria dos israelenses, os moradores de Gaza e Donald Trump, esperam que um acordo sobre isso desbloqueie as negociações da segunda fase no futuro, que encerrem a guerra de forma permanente.

Se isso acontecerá depende, em parte, da capacidade dos negociadores de resolver diferenças aparentemente irreconciliáveis. Também depende se, sob intensa pressão pública e exaustão, os líderes de Israel e o que resta do Hamas agora se voltarão para a paz.

Os negociadores do Hamas serão liderados por Khalil alHayya. Quatro semanas atrás, um ataque israelense em Doha, no Catar, quase o atingiu, matando seu filho, um assessor e três guarda-costas. Em outro andar do resort de Sharm elSheikh estará Ron Dermer, assessor do premiê de Israel, Binyamin Netanyahu, e membro do gabinete que aprovou o ataque.

As duas equipes não se encontrarão diretamente, mas diplomatas americanos, egípcios e do Catar ficarão no vai e vem entre elas. Dois confidentes de Trump, Steve Witkoff e Jared Kushner, seu genro, estarão presentes. Trump vai pressioná-los. Há uma semana, ele lançou um plano de paz de 20 pontos, forçando Netanyahu a se comprometer a acabar com a guerra. Isso poderia levar, disse o presidente, à “paz eterna”. Em 3 de outubro, uma resposta do Hamas não desanimou Trump. “Acredito que eles estão prontos para uma paz duradoura”, postou.

PRESSÃO. Ele disse a Netanyahu para engolir suas reservas e ordenar que o exército de Israel cessasse os bombardeios em Gaza. Em 5 de outubro, ele ameaçou o Hamas com “destruição completa” a menos que renunciasse ao poder. Kushner e Witkoff, seu parceiro de golfe, foram para o Egito para “tomar conta” dos israelenses, como disse um diplomata americano, e forçá-los a fazer um acordo. Trump está contando com seus aliados do Catar para aumentar a pressão sobre o Hamas. Ele ainda espera ganhar o Nobel da Paz, que será anunciado dia 10.

As negociações devem resolver o quebra-cabeça de como garantir um cessar-fogo. A parte mais fácil é que isso envolveria a rápida libertação dos 48 reféns israelenses (dos quais pelo menos 20 ainda se presume estarem vivos) presos há dois anos, e a confirmação da lista de 1,9 mil prisioneiros palestinos, incluindo 250 que cumprem penas perpétuas, que Israel deve libertar em troca.

Na prática, a coisa é mais complicada. Até que o Hamas renuncie às armas e ao poder, os israelenses não garantirão a saída de Gaza. Mas, a menos que o Hamas tenha confiança de que o exército não retomará os combates após a libertação dos reféns, o grupo terrorista não entrará no jogo.

O compromisso provável é a retirada parcial dos israelenses e garantias verbais ou escritas de Israel e EUA. Se um cessarfogo e a libertação dos reféns acontecerem, espera-se que a ajuda humanitária chegue em grande quantidade a Gaza.

SAÍDA. O exército de Israel está pronto para um acordo. Exausto após dois anos de guerra, ele quer reduzir as cinco divisões que tem atualmente em Gaza e liberar dezenas de milhares de reservistas. “Durante meses, todo o nosso planejamento incluiu a contingência de um cessar-fogo rápido e uma rápida redistribuição”, diz um general.

O exército recuará para qualquer linha que for decidida nas negociações dentro de alguns dias. Assim que a lista de prisioneiros palestinos a serem libertados for finalizada, o gabinete de Israel deverá votar para aprová-la. Em seguida, período de 24 horas durante o qual as famílias das vítimas mortas pelos prisioneiros poderão apresentar uma petição ao Supremo Tribunal contra a libertação deles.

No passado, os juízes rejeitaram as petições e, uma vez concluídas essas formalidades, a saga dos reféns que há tanto tempo domina a sociedade israelense poderá chegar ao fim.

As imagens dos reféns israelenses finalmente sendo libertados e da ajuda chegando aos civis desesperados em Gaza podem provocar euforia em ambos os lados. Mas, à frente, há desafios muito maiores e mais complexos. O plano de Trump, endossado pelos aliados árabes dos EUA, prevê o desarmamento do Hamas, o estabelecimento de um governo “tecnocrático” que administrará os assuntos civis da faixa e o envio de uma “Força Internacional de Estabilização” para garantir a segurança e impedir o Hamas de assumir o controle tácito ou explícito de Gaza.

Embora os negociadores estejam ansiosos para estabelecer as bases para essas negociações da segunda fase, as duas partes mantêm posições públicas irreconciliáveis e precisam enfrentar suas próprias políticas internas.

FORÇA. Para o Hamas, os reféns são suas moedas de troca. O grupo tentará obter garantias mais concretas que impeçam a retomada da campanha de Israel e pressionará contra os outros componentes do plano de 20 pontos.

Hayya, membro do quarteto que lidera o Hamas desde que seu líder anterior, Yahya Sinwar, arquiteto das atrocidades de 7 de outubro, foi morto há um ano, está sob pressão de todos os lados. Ele e seus colegas precisam justificar o desastre que causaram ao seu próprio povo e, por isso, saudarão a libertação dos prisioneiros.

Embora digam que podem eventualmente aceitar um governo tecnocrático, eles esperam manter o controle de Gaza e vão relutar em enfraquecer sua posição na futura luta contra seu rival, o Fatah, pela liderança do movimento palestino. Eles não têm pressa em entregar seu arsenal restante.

O Hamas está dividido entre aqueles que insistem na identidade de “resistência” de seu braço armado e aqueles dispostos a aceitar uma transição para um papel mais político. As negociações no Egito enviarão um sinal crítico sobre a identidade de longo prazo do Hamas. Uma rejeição total do processo sinalizaria um novo grau de niilismo do grupo e, talvez, intensificaria a dissidência e a agitação entre a população de Gaza.

RISCO. Assim como o Hamas enfrenta um momento decisivo, o mesmo ocorre com Netanyahu, que em breve estará lutando por uma reeleição. Sob intensa pressão de Trump, ele foi forçado a concordar com o plano de cessar-fogo e agora o apresenta como sua vitória pessoal. Em declaração aos israelenses, ele se gabou: “De vitória em vitória, estamos mudando a face do Oriente Médio”. As forças de segurança de Israel e 72% da população apoiam o plano de Trump.

Mas e se muitos dos seus 20 pontos não forem cumpridos? Por exemplo, se as negociações resultarem na retirada de Israel da maior parte da Faixa de Gaza sem garantir o desmantelamento completo da infraestrutura militar do Hamas, seus parceiros de coalizão de extrema direita cumprirão sua ameaça de deixar o governo e Netanyahu será forçado a antecipar as eleições (atualmente marcadas para outubro próximo).

Sob fogo cruzado tanto da oposição quanto de seus exparceiros, será muito mais difícil convencer os eleitores de que ele é o vencedor da guerra. Acabar com a guerra é o objetivo das negociações desta semana. Os líderes de ambos os lados também têm seus próprios futuros políticos em jogo.

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