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O que o Reino Unido quer aprender com o Brasil

À frente do British Council no país, CEO aposta em pontes culturais entre os dois países

Por Alice Ferraz, O Estado de S. Paulo, 12/10/2025

 

O canadense Scott McDonald, diretor executivo global do British Council, chega a São Paulo com um propósito: mostrar que a cultura ainda é o idioma mais poderoso entre as nações. “Brasil e Reino Unido vêm construindo uma relação cada vez mais próxima. No último ano, sentimos essa conexão se fortalecer — há mais colaboração e novas pontes sendo criadas. Então pensamos que agora é o momento certo para essa temporada.”, afirma em entrevista à Coluna.

Ele fala do Ano Cultural Brasil–Reino Unido, iniciativa do British Council em parceria com o Instituto Guimarães Rosa, que inaugura um novo capítulo nas trocas criativas entre os dois países. A programação — aberta com a exibição de O Inquilino, clássico de Hitchcock acompanhado pela Brasil Jazz Sinfônica, na Sala São Paulo — se estende até junho de 2026, com mais de cem projetos que cruzam arte, educação, clima e diversidade. “Durante quase um ano e nove meses, todo o foco da instituição se volta ao Brasil. Teremos centenas de eventos nos dois países”, explica.

“Quando penso na cultura brasileira, penso em energia. Este é um país complexo, com muitos desafios, e a cultura tende a abraçar esses grandes temas. Está ligada a causas sociais, identidade e ao clima. São coisas poderosas — e queremos trazê-las para o Reino Unido, para dar mais energia, mais cor, mais cultura” Scott McDonald

Formado em Finanças e Economia pela Universidade McGill e mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Cambridge, McDonald construiu uma carreira global antes de assumir o comando do British Council em 2021. Nascido em Toronto, passou a infância entre o Canadá e o Oriente Médio, acompanhando os pais — um médico e uma professora — em passagens pela Arábia Saudita e pelos Emirados Árabes. A experiência moldou um olhar cosmopolita e empático sobre o papel da cultura como elo entre sociedades.

Hoje, fala do Brasil com entusiasmo. “Quando penso na cultura brasileira, penso em energia. Este é um país complexo, com muitos desafios, e a cultura tende a abraçar esses grandes temas. Está ligada a causas sociais, identidade e ao clima. São coisas poderosas — e queremos trazê-las para o Reino Unido, para dar mais energia, mais cor, mais cultura.”

Entre as iniciativas da temporada, destaca a colaboração entre o Carnaval de Notting Hill e o de Salvador. “O Reino Unido tem o segundo maior carnaval do mundo, depois do Brasil. Estamos unindo os dois para criar uma nova colaboração artística — mas também para refletir sobre sustentabilidade e o valor do planeta.” A agenda se estende à COP30, em Belém, com a instalação Gaia, do artista britânico Luke Jerram. “É uma escultura de sete metros que reproduz o planeta em detalhes. É impossível olhar para ela e não se lembrar do que estamos fazendo com o mundo.”

“Muitas vezes pensamos que as relações internacionais se dão entre governos, instituições ou empresas. Nosso trabalho é diferente: é conectar pessoas. E as melhores formas de fazer isso são por meio da educação e da cultura” Scott McDonald

Para McDonald, cultura e educação são as pontes mais sólidas entre países. “Muitas vezes pensamos que as relações internacionais se dão entre governos, instituições ou empresas. Nosso trabalho é diferente: é conectar pessoas. E as melhores formas de fazer isso são por meio da educação e da cultura.” Ele observa que o aprendizado de idiomas e o uso da tecnologia também fazem parte dessa conexão. “A proficiência em inglês ainda é baixa — cerca de 5% da população brasileira domina o idioma. Mas a maneira de aprender está mudando. As pessoas preferem o ambiente digital, e o desafio é oferecer algo eficaz e acessível. A tecnologia terá um papel cada vez mais vital, mas acreditamos que os professores continuarão sendo o coração de qualquer sistema educacional.”

O executivo vê a arte como espaço de diálogo em tempos fragmentados. “As artes, a cultura e a educação são plataformas para pensar os grandes desafios do nosso tempo: a tecnologia, a sustentabilidade e a inclusão. Vivemos um mundo dividido, com guerras e polarizações. O que fazemos é criar espaços para que as pessoas conversem. Talvez isso não acabe com os conflitos — mas vale a pena tentar.”

Sobre a inteligência artificial, ele fala com humor e lucidez. “Há muitos tecnólogos discutindo o que a IA significa, mas o que as artes e a cultura podem fazer é nos ajudar a pensar sobre como isso afetará a nossa vida diária. Talvez daqui a um ano você não precise me entrevistar — uma IA poderia extrair tudo o que eu já disse. Mas, assim como no caso do clima, é a cultura que nos faz entender o que está em jogo.”

“As artes, a cultura e a educação são plataformas para pensar os grandes desafios do nosso tempo: a tecnologia, a sustentabilidade e a inclusão. Vivemos um mundo dividido, com guerras e polarizações. O que fazemos é criar espaços para que as pessoas conversem. Talvez isso não acabe com os conflitos — mas vale a pena tentar” Scott McDonald

No Brasil, McDonald diz ter encontrado algo raro. “Existe uma sociabilidade natural nos brasileiros. Eles gostam de se envolver, de conversar, e isso os torna incrivelmente criativos. Quando se combina isso com a juventude e a energia do país, é realmente emocionante interagir com essa cultura.”

Ele encerra com a ideia que resume o espírito da temporada. “Quando há tantos motivos para olhar ao redor e pensar que estamos em um momento difícil, é uma atitude proativa dizer que encontraremos maneiras de ser positivos e alegres sobre o futuro. Cultura e alegria — é disso que o mundo precisa.”

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