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‘Se a direita evitar a fragmentação, terá grande chance em 2026’

Cientista político relança livro e diz que início da República oferece lições para o futuro do Brasil

Autor de ‘Os Virtuosos: Os Estadistas que Fundaram a República Brasileira’, que será republicado 20 anos após a primeira edição

Por Zeca Ferreira, O Estado de S. Paulo, 12/10/2025

 

Tentativas de golpe de Estado, choques entre os Poderes e polarização política não são exclusividade da cena brasileira. A trajetória do País, lembra o cientista político e escritor Luiz Felipe D’Avila, é marcada por longos períodos de instabilidade, intercalados por breves momentos de normalidade.

“Desde a fundação da República, o Brasil já teve sete Constituições, mais de doze estados de sítio, fechamento do Congresso e deposição de presidentes. Foram, portanto, anos conturbados”, afirma D’Avila. Para ele, compreender o presente e projetar o futuro da política nacional exige um mergulho no passado.

No dia 30 de outubro, o escritor relança, duas décadas após a primeira edição, o livro Os Virtuosos: os Estadistas que Fundaram a República Brasileira. A obra revisita os governos de Prudente de Morais, Campos Salles e Rodrigues Alves — presidentes que enfrentaram o desafio de consolidar as instituições republicanas após dois governos militares autoritários.

Ao traçar paralelos entre os dilemas da Primeira República e o cenário atual, o cientista político destaca a relevância de líderes comprometidos com a democracia liberal, a responsabilidade fiscal e o crescimento econômico. Ele lembra que Campos Salles defendia como prioridade a organização das finanças públicas. “Vivemos justamente o oposto: um desarranjo fiscal que gera custos enormes à população”, critica. As lições do início da República, afirma, também ajudam a refletir sobre as eleições de 2026. Em sua avaliação, o futuro político do País dependerá da capacidade da direita em construir consensos e evitar o populismo.

O que motivou o relançamento de Os Virtuosos neste momento de polarização e descrédito nas instituições?

A primeira coisa importante a ser dita sobre esta reedição é que ela surge em um momento histórico em que muitos acreditam que o Brasil está vivendo, pela primeira vez, um processo de polarização. Isso não é verdade. A polarização faz parte da nossa história republicana. O Brasil tem uma República marcada por longos períodos de anormalidade, intercalados por breves momentos de normalidade. Desde a fundação da República, há 136 anos, o Brasil já teve sete Constituições, mais de doze estados de sítio, fechamento do Congresso e deposição de presidentes da República. Foram anos conturbados. Revisitar os governos de Prudente de Morais, Campos Salles e Rodrigues Alves é fundamental. A missão de Prudente foi implementar uma democracia liberal e tirar o Brasil de governos autoritários, como os de Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto. No caso de Campos Salles, a missão era arrumar as finanças. E quando Rodrigues Alves assume, sua tarefa é fazer o Brasil voltar a crescer.

O livro retrata um período em que o Brasil consolidava suas instituições republicanas após dois governos militares autoritários. Que paralelos o senhor enxerga entre aquela transição e o atual cenário, depois da tentativa de golpe de Estado?

A primeira coisa é a crença profunda nos princípios liberais e na democracia liberal. Ou seja, a Constituição existe para limitar o poder do Estado e do governante, para dar o maior grau de liberdade ao indivíduo. Essa é a base da democracia. Então, essa combinação de instituições fortes, governo com poder limitado, garantia das liberdades individuais e uma política econômica liberal, para fazer o Brasil se tornar mais próspero, era a crença desses republicanos liberais. Era o que a gente chamava de ala paulista: Prudente de Morais, Campos Salles, Rodrigues Alves, Bernardino de Campos, toda essa turma. Em contrapartida, havia os mais extremistas, aqueles que viam a República como um sistema de centralização de poder. Era o que chamávamos de república caudilha, muito comum no restante da América Latina, com pequenos ditadores tomando conta dos países. Prudente de Morais, Campos Salles e Rodrigues Alves foram justamente os que salvaram o Brasil desse trágico destino das repúblicas autoritárias.

O senhor afirma que, mesmo com a corrupção disseminada, há “ilhas de excelência” na política brasileira. Há exemplos atuais que podem ser comparados aos “virtuosos” da Primeira República?

Cito dois grandes presidentes: Fernando Henrique Cardoso e Michel Temer. Porque foram presidentes que compreenderam a importância do fortalecimento das instituições democráticas.

Que lição a liderança de Prudente de Morais oferece aos governantes atuais diante de crises militares?

É interessante observar que, dentro do militarismo brasileiro, sempre existiram duas correntes: uma positivista, mais autoritária, e outra legalista-liberal, ligada à tradição do Duque de Caxias. Caxias era quem mantinha a disciplina no Exército e, ao mesmo tempo, defendia a legalidade na política. Sempre tivemos essas duas alas dentro das Forças Armadas. E, no episódio recente, ficou claro que a ala legalista é a majoritária no Exército.

O legado de Campos Salles na defesa do equilíbrio fiscal ainda inspira o debate sobre responsabilidade nas contas públicas?

Campos Salles dizia que, se o presidente tivesse apenas uma missão, deveria ser a de cuidar bem das finanças do País. Sem isso, a economia não cresce, não há ambiente de negócios e o Brasil não prospera. Ele sempre entendeu que o rigor fiscal era fundamental para a saúde das contas públicas. E por que isso é importante hoje? Porque vivemos justamente o oposto: um desarranjo fiscal que gera custos enormes à população. Esse desequilíbrio provoca inflação alta e mantém a taxa de juros elevada. Como resolver? Com a fórmula de Campos Salles: reduzir o gasto público, cortar despesas desnecessárias, racionalizar o uso dos recursos e medir o impacto real de cada gasto na ponta, na melhoria das políticas públicas. Essa preocupação, que ele teve lá atrás, infelizmente não existe hoje.

Como o senhor interpreta a ascensão recente do populismo e a condenação de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe à luz da resistência de Prudente de Morais, Campos Salles e Rodrigues Alves aos “caudilhos e demagogos” de seu tempo?

É importante compreender a natureza do populismo. Ele surge quando as instituições deixam de responder às demandas da população. E por que o populista consegue se tornar popular e conquistar votos? Porque ele toca nas dores reais das pessoas, nos problemas que afetam diretamente suas vidas. No Brasil, nas últimas décadas, não tivemos presidentes comprometidos com o fortalecimento institucional. Ao contrário: em 20 anos de populismo, as instituições foram cada vez mais capturadas por corporações. É por isso que os populistas vêm vencendo: porque faltaram líderes dispostos a reformar as instituições, libertá-las da captura pelo corporativismo público-privado e orientar a política pública para resultados concretos. E como podemos vacinar o País contra essa mentalidade populista? Sou otimista nesse ponto. Hoje existe uma geração extraordinária de governadores e prefeitos, comprometida com uma gestão baseada em dados e evidências.

O senhor é otimista com o futuro político do País, pensando a médio prazo?

Sim, muito. Mas, no curto prazo, precisamos ter em mente o seguinte: vou fazer uma analogia com o passado recente. Em maio de 1993, o Brasil enfrentava uma inflação de 60% ao mês. Itamar Franco era presidente da República, e em apenas sete meses já haviam passado três ministros da Fazenda. O único projeto que o presidente parecia disposto a levar adiante era a volta da fabricação do Fusca. Enquanto isso, Lula aparecia com 40% nas pesquisas e era o favorito para vencer a eleição de 1994. Então, em maio de 1993, Itamar chama Fernando Henrique Cardoso para assumir o Ministério da Fazenda. Ele monta uma equipe de especialistas, elabora o Plano Real, a inflação é debelada, e FHC se elege presidente. Ou seja, o Brasil tem esses “golpes de sorte”. Se a direita tiver cabeça, evitar a fragmentação em disputas internas e escolher um ou dois nomes dessa ótima safra de governadores para 2026, teremos uma grande chance de vencer a eleição.

O senhor vê os governadores viabilizando uma candidatura pela direita sem o apoio do bolsonarismo?

O essencial é ter um objetivo comum. Se olharmos para os três presidentes que mencionei, cada um tinha clareza absoluta do seu propósito: Prudente de Morais queria estabelecer a democracia liberal no Brasil; Campos Salles, reorganizar as finanças públicas; Rodrigues Alves, retomar o crescimento econômico. E qual deve ser o objetivo comum da direita hoje? Retirar Lula e o PT do poder em 2026. Esse tem que ser o foco. Se começarem as disputas internas, cada um puxando para um lado, o projeto se perde. A estratégia precisa ser clara: tirar Lula, tirar o populismo da Presidência e eleger um dos governadores.

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