Steinbruch raspa CSN até o osso e pode acabar com Volta Redonda
Redação RR, 06/03/2026
A deterioração da CSN está longe de ser apenas uma consequência da notória perda de competividade da siderurgia brasileira. Há método e premeditação por trás desse declínio. No mercado cresce a percepção de que a CSN de hoje é resultado de um processo calculado de esvaziamento conduzido por Benjamin Steinbruch, que ao longo do tempo foi tirando valor financeiro da companhia, a ponto de deixá-la quase no osso e praticamente empurrar o problema para a conta do governo, tanto o estadual quanto o federal. É possível mapear uma sucessão de ações que apontam nessa direção. Nos últimos anos, a siderúrgica tornou-se uma plataforma de extração de caixa e alocação de capital em outros ativos do grupo, como mineração, cimentos e logística. Ou seja: a CSN acabou sugada para alimentar negócios paralelos de Steinbruch. De 2021 para cá, o caixa operacional da empresa caiu de R$ 14,8 bilhões para cerca de R$ 8 bilhões. Ao mesmo tempo, a siderúrgica virou um depositário de passivos. Desde 2021, a dívida líquida da companhia disparou, saindo de R$ 16 bilhões para impagáveis R$ 38 bilhões. Ainda assim, na condição de acionista controlador, Steinbruch não tem do que se queixar: desde 2020, a CSN já distribuiu cerca de R$ 13,8 bilhões em dividendos.
Assim como colesterol, pode-se dizer que há dívida “boa” e dívida “ruim”. O hemograma da CSN mostra que o seu passivo se enquadra no segundo caso. A disparada do endividamento não se traduziu em significativos investimentos na planta de Volta Redonda. Pelo contrário. No setor, é quase unânime a avaliação de que a CSN é hoje uma usina defasada, que caminha a passos largos para se tornar quase inviável do ponto de vista tecnológico. Benjamin Steinbruch não conduziu os investimentos necessários para a modernização do alto-forno. Aos poucos, a CSN perdeu centralidade dentro do próprio grupo. Não se pode dizer que seja um fenômeno recente. Especialistas ouvidos pelo RR são quase unânimes em afirmar que, há muito, Benjamin Steinbruch vem tirando valor da CSN, partindo da premissa de que o negócio seria praticamente insustentável no longo prazo. Ou seja: não é de hoje que carrapatos e sanguessugas se prendem à pele da empresa. Essa sucção é um projeto antigo e planejado.
Até mesmo o processo de venda de ativos aberto por Benjamin Steinbruch surge como um truque de ilusionismo. Parece ter sido feito para não ser feito. Há relatos no mercado de que Steinbruch estaria tentando levantar R$ 15 bilhões com a eventual venda da siderúrgica. Seria uma pedida longe da realidade, que ignora a perda de valor da companhia. Basicamente, haveria quatro caminhos para a alienação parcial ou total da CSN, conforme o próprio RR já enumerou: uma fusão com a também combalida Usiminas, a venda para a ArcelorMittal ou para a Gerdau ou a negociação para investidores chineses, muito provavelmente com o objetivo de transformar a usina de Volta Redonda em uma mera laminadora de placas de aço importadas do país asiático.
Mas há um quinto caminho – e talvez nunca tenha existido outro para Benjamin Steinbruch. Todo o processo de definhamento da CSN teria como objetivo perverso criar um fator de pressão política para lançar o problema no colo dos governos federal e do estado. O eventual colapso da siderúrgica significaria uma tragédia econômica e social sem precedentes em Volta Redonda e em todo o Sul Fluminense. Ou seja: a fragilização da CSN não deixa de ser um elemento de chantagem sobre o poder público. Para o governo Lula, a empresa carrega um forte valor simbólico, como um dos últimos grandes emblemas da era Vargas. Para o governo do estado, a debacle representaria um turbilhão de desemprego, perda de renda e consequente convulsão social na terceira maior cidade do Rio de Janeiro. Se a usina perde musculatura e a empresa entra em espiral de necessidade de caixa, com riscos de demissão em massa, está construída a narrativa para justificar o “roteiro clássico” de socorro: financiamento com bancos públicos, flexibilização de garantias, renegociação de passivos, incentivos estaduais e federais e algum tipo de blindagem regulatória. O argumento é que, ao deixar a siderurgia chegar “no osso”, cria-se uma situação em que o Estado é empurrado a escolher entre duas más alternativas: apoiar um grupo privado em dificuldade ou administrar uma tragédia social anunciada. Benjamin Steinbruch joga com as pedras brancas e pretas nesse xadrez. Vale lembrar que o empresário jamais morreu de amores por Volta Redonda e, por extensão, sobre o Rio de Janeiro, vide a transferência da sede da CSN para São Paulo. Esse movimento ajuda a consolidar a percepção de que a cidade sempre foi um passivo nas contas de Steinbruch.
ARTIGO1361
