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Trump desata ‘guerra dos mapas’ antes das eleições de 2026

Presidente americano pressiona republicanos para redesenhar distritos e manter contole da Câmara.

Por Daniel Gateno, O Estado de S. Paulo, 31/08/2025

 

Donald Trump deu a largada para a “guerra dos mapas” nos EUA aos pressionar o Texas a modificar seus distritos para favorecer o Partido Republicano em um processo conhecido como “gerrymandering” e pedir que outros Estados, como Indiana, Ohio e Missouri, fizessem o mesmo. A iniciativa escalou. Estados democratas, como Califórnia, Nova York e Illinois, prometeram responder com seus próprios redesenhos.

No Texas, a manobra já foi aprovada e deve entrar em vigor, apesar de possíveis desafios judiciais. Os democratas do Estado chegaram a fugir por duas semanas para impedir a votação por falta de quórum, mas retornaram depois que a Califórnia prometeu replicar a gambiarra texana.

Os dois Estados mais populosos do país esperam usar seus novos mapas nas eleições legislativas de 2026, quando um terço do Senado será renovado, assim como todos os deputados – nos EUA, o mandato na Câmara é de apenas dois anos.

Os republicanos do Texas esperam que os novos mapas lhes garantam cinco novas vagas de deputados. Já os democratas da Califórnia querem eliminar os ganhos texanos com cinco novos assentos. Atualmente, os republicanos têm maioria no Congresso, mas historicamente as eleições de meio de mandato favorecem a oposição. A expectativa de Trump é de que o gerrymandering o ajude a controlar a Câmara.

Para Steve Israel, ex-congressista democrata, a intenção inicial do redesenho eleitoral era justa, mas a iniciativa passou a ser usada como arma de campanha. “A ideia era garantir que cada membro do Congresso representasse o mesmo número de pessoas, mas agora essa prática se tornou uma maneira de garantir a reeleição dos congressistas”, disse.

O processo está ligado ao desenho dos limites dos distritos eleitorais americanos. Nos EUA, cada Estado elege dois senadores. Os deputados são eleitos pelo voto distrital – cada distrito elege um representante.

MUDANÇAS. A cada dez anos, após o censo, os Estados redesenham os limites dos distritos para refletir as mudanças populacionais em um processo conhecido. Mas políticos de ambos os partidos aproveitam o processo para manipular os mapas e favorecer seus candidatos.

O termo gerrymandering tem origem no nome do ex-governador de Massachusetts Elbridge Gerry, que redesenhou os distritos do Estado em 1812. Um jornal local afirmou que um dos distritos desenhados por Gerry parecia uma salamandra (“salamander”, em inglês) e, desde então, a prática ficou conhecida como gerrymander.

A prática é permitida, mas cada Estado tem uma lei específica sobre como redesenhar os distritos. “A única coisa que a Constituição exige é que todos os distritos devem ter a mesma população e não se pode discriminar com base em raça”, diz Richard Briffault, professor de direito da Universidade Columbia.

O especialista destaca que existem duas formas de aplicar o gerrymandering. A primeira consiste em espalhar os eleitores de um partido entre vários distritos. Com a força eleitoral dividida, esse grupo tem dificuldade de eleger candidatos.

A segunda prática consiste em amontoar eleitores de um partido em poucos distritos para que eles vençam com margens esmagadoras, mas não tenham força no restante do Estado. “De acordo com esse tipo de gerrymandering, o partido que desenha os mapas coloca o máximo de eleitores da oposição em um único distrito”, disse Briffault. “Então, em vez de ganhar o distrito por 60% dos votos, um congressista da oposição ganha por 90%. A oposição está fortemente representada em um distrito, mas não tem voz em outros.”

TEXAS. Apesar do gerrymandering ser comum, os Estados geralmente esperam até a divulgação do censo para redesenhar os distritos. O próximo será em 2030, mas os republicanos do Texas decidiram antecipar o processo e conseguiram aprovar o projeto por terem maioria nas duas Casas legislativas estaduais.

O governador do Texas, o republicano Greg Abbott, defendeu o processo antecipado citando uma carta do Departamento de Justiça, que argumenta que vários distritos precisavam ser redesenhados por conta de uma decisão do Tribunal de Apelações dos EUA.

A decisão diz que a Lei Federal de Direito ao Voto, que protege o voto de minorias, não exige a existência dos chamados “distritos de coalizão”, onde grupos minoritários constituem maioria. Mas especialistas entrevistados pelo Estadão alegam que a decisão não diz que esses distritos precisam ser redesenhados.

“O questionamento do Texas em relação aos ‘distritos de coalizão’ não é a razão do gerrymandering antecipado”, destaca Joseph Fishkin, professor de direito da Universidade da Califórnia em Los Angeles. “Não faz sentido redesenhar um Estado inteiro por conta de uma decisão que afeta apenas alguns distritos.”

Para o especialista, a mudança nos “distritos de coalizão” significa menos representação de minorias – como negros e latinos –, que tendem a votar majoritariamente no Partido Democrata. A justificativa real das mudanças é a pressão de Trump.

O presidente teme a perda da Câmara, o que poderia atrasar sua agenda e lançar investigações contra seu gabinete. Os distritos redesenhados no Texas incluem grandes conglomerados urbanos, como Dallas, Houston e Austin, que tendem a votar nos democratas, assim como dois distritos na região do Vale do Rio Grande, na fronteira com o México, com grande presença latina.

A expectativa é de que o Partido Republicano tenha o controle de 30 das 38 cadeiras do Texas na Câmara dos Deputados, colocando quase 80% dos assentos do Estado na mão dos republicanos.

Apesar de Trump querer manter os votos latinos na região de fronteira que receberam em 2024, pesquisas indicam que o apoio latino no Texas pode ser temporário, devido a dificuldades econômicas amplificadas pelas tarifas e pela política agressiva de deportação de imigrantes ilegais.

“Redesenhar os distritos pensando em ganhos passados é sempre uma dificuldade”, disse Jason Shepherd, advogado e estrategista republicano. “Pode ser que eles consigam os cinco assentos e pode ser que só consigam dois.”

O domínio republicano seria exagerado em relação a popularidade da legenda no Texas. Apesar de ser um Estado republicano, Trump venceu com 56% dos votos em 2024, bem abaixo dos 80% dos assentos que poderiam ser controlados pelo partido.

“Gerrymandering é um processo político”, afirma Shepherd. “É curioso que os democratas só não gostam disso quando acontece com eles, mas existem muitos Estados americanos que são controlados por democratas em que poderíamos ter mais assentos.”

A pressão de Trump não parou no Texas. O presidente quer que Indiana, Ohio, Missouri e Flórida também realizem o gerrymandering. Missouri anunciou na sexta-feira que avaliará novos mapas na próxima semana, mas não está claro se esses Estados podem fazer isso. Nos EUA, cada Estado tem uma lei diferente sobre o tema. Enquanto no Texas é possível redesenhar os distritos apenas com maioria no Legislativo estadual, Indiana e Ohio precisariam mudar leis locais.

Já os democratas tentam responder como podem. O governador da Califórnia, Gavin Newson, conseguiu aprovar uma proposta para a realização de um plebiscito, em novembro, sobre o redesenho. A medida suspende a comissão independente até 2030, que voltaria a atuar depois do censo.

Nova York, Maryland e Illinois também estudam aplicar medidas semelhantes que poderiam beneficiar os democratas, mas sem um processo claro de como essa mudança seria feita a tempo das eleições de 2026. “Os democratas têm uma margem estreita”, disse Israel. “Se o Texas usa formas abusivas de gerrymandering, os democratas não têm escolha senão usar as mesmas táticas.”

Para Fishkin, a “guerra dos mapas” é ruim para todos e prejudica a competitividade das eleições. “Existe uma perda política”, disse. Analistas avaliam que os republicanos têm vantagem sobre os democratas.

Atualmente, o partido de Trump governa mais Estados e tem mais opções de redesenho. Os democratas já realizaram gerrymandering em Estados que controlam e têm mais barreiras jurídicas contra um novo redesenho.

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