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Vamos ‘resetar’ o Brasil?

Por José Carlos ‘Zeca’ Martins, O Estado de S. Paulo, 19/09/2026

Depois desse 15 de setembro, nós, brasileiros, nos abatemos diante da vergonha alheia. Isso não significa que estamos condenados a viver com ela. Há saída e depende só de gente como o leitor e eu. Gente comum e independente, tendo presente o único e exclusivo interesse público do Brasil.

Não escrevo pensando apenas no Brasil. Penso nos meus seis netos e na dificuldade que terão para entender por que o Brasil aceitou que as coisas chegassem aonde chegaram. Os adultos do futuro, que hoje são crianças, merecem saber que nem todos se curvaram. E, se o Brasil der certo, houve quem lutou por isso.

Não sendo advogado, jornalista ou político, ponho meu olhar de leigo sobre a tragifarsa promovida pela Suprema Corte brasileira. A terça-feira, 15 de setembro, será para sempre o dia da vergonha, com o agravante de comunicar que os golpistas do 8 de Janeiro tinham razão em parte.

Essa é a tragédia fundamental para os que acreditam na democracia liberal. A traição dos hipócritas.

Assistido ao vivo por milhões de brasileiros, o escárnio trafegou como norma aceita e escancarou o desprezo pelo decoro, pela isenção e pelo respeito à sociedade, precondições da democracia. Ali, repito, como no 8 de Janeiro, se operou um golpe contra a democracia.

Mas é a Suprema Corte do meu país, c…! Quem são esses indivíduos que nem disfarçam o desinteresse pelo Brasil, transformando a Corte em palco de telecatch? Floreios para se acusarem, chicanas para se protegerem. Nós, engulhos.

Naquela sessão, ministros acusaram ministros como se resolvessem desavenças de botequim. Nenhum, à exceção da ministra, falou sobre o Brasil nem mencionou o futuro, a não ser como ameaça.

Incluíram-nos, como sociedade, num roteiro de filme B de que ninguém escolheu participar. A sequência acabará mal, sabe-se já na entrada do teatro. Não há plot twist que salve elenco ruim: quem espera reviravolta é bilheteiro vendendo ingresso duplo para o mesmo fracasso.

Ninguém se salva. Nem os bons com sua placidez sem energia.

Aí eu, como cidadão comum, posso ser ignorante, mas não preciso ser tolo. Posso imaginar o fim do filme e penso nas consequências. É o nosso país que está ali, com os defeitos magnificados e nenhuma virtude retratada. O Brasil tem problemas, omissões e injustiças, mas não se resume a isso nem cabe na amostragem daquela sessão degradante no Supremo Tribunal Federal (STF).

A anomia está batendo na nossa porta, explicou Miguel Reale Júnior neste jornal. Pergunte ao ChatGPT o que é anomia e você saberá: ela é a mulher do caos. Emerge quando as normas perdem autoridade, socializando as consequências e gerando a poeira necessária para que os provocadores escapem da responsabilização. O termo não nasceu de floreio, é de Durkheim, que o cunhou no final do século 19 para descrever exatamente isto, a sociedade em que a régua comum se quebra e cada um passa a medir com a régua que lhe convém.

Vendo isso, temos de perguntar: o que pode pensar alguém com a metade da idade daqueles ministros sobre o futuro deste país? Colham uma amostra, perguntem a três jovens de 30 anos.

Como ter esperança? Como amar este Brasil decaído? Como acreditar que há futuro aqui? Para não sucumbir ao pessimismo, é preciso renunciar à candidez. É necessário desconfiar de quem quer normalizar sem resolver o impasse instalado. Normalização não é ignorância, já que formalmente temos instituições, mas é ingenuidade. E, sendo ingênua, é fraca; sendo fraca, é incompetente.

A degradação estacionou no STF, até os mármores da Corte sabem. Se chegou aonde deveria estar a última instância, o que sobra para consertar na margem? O que pode ser feito sem cortar fundo para extirpar o tumor?

Só vejo uma saída não golpista. Reset. Reprogramar o Estado. Refundar a democracia, reconstituí-la em novas bases, qualquer saída que não se resuma ao esforço autofágico que só encobre e nada revela.

Temos eleições para presidente em poucos dias. O vencedor terá margem escassa e autoridade reduzida. O País seguirá em suspenso, a degradação seguirá intocada.

A alternativa à refundação, coordenada e presidida pelo interesse público, é a preservação da baderna institucional que desemboca em golpe por paladinos autoproclamados.

Historicamente, isso não é só plausível, é provável. Começa com aplauso de quem troca liberdade por promessa de ordem. Mas o problema nunca foi este ou aquele nome no poder, é um modelo que os fabrica em série, mudando o rótulo e conservando a fórmula tóxica. A reconstituinte não busca um salvador, busca reescrever o roteiro, para que o próximo golpista não encontre o caminho pronto.

Tentamos, por tempo demais, oferecer aspirina a um paciente que está com câncer. Buscamos saídas conservadoras. Sempre é mais cômodo ser conservador, não quando as saídas estão bloqueadas.

Ou “resetamos” ou nos conformamos e assistimos da poltrona à diáspora dos jovens remanescentes. E ficamos aqui, os velhos, entretidos com piruetas dos ministros que temos. E, neste caso, merecemos. Os jovens não. Eles têm a mala pronta e razão de sobra para partirem.

ARTIGO1387

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