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Mais da metade dos candidatos de 2022 que voltaram às urnas trocou de partido

Dentre as 32 siglas, apenas 10 mantiveram mais da metade dos postulantes que lançaram quatro anos atrás

Por Cindy Damasceno/Bruno Ponceano/William Brizola/Hugo Henud, O Estado de S. Paulo, 27/09/2026

Quase seis em cada dez candidatos que disputaram as eleições de 2022 e voltaram às urnas em 2026 trocaram de partido. Segundo levantamento do Estadão, 59,8% desses nomes concorrem este ano por uma legenda diferente.

A mudança atingiu a maior parte do sistema partidário: dos 32 partidos, apenas 10 conseguiram manter mais da metade dos candidatos que haviam lançado quatro anos antes. A intensidade da migração, porém, varia entre as siglas. O PSDB aparece entre as legendas mais afetadas pela saída de quadros, enquanto PT e PSOL estão entre aquelas que apresentaram maior capacidade de retenção.

Os dados mostram que algumas siglas perderam uma parcela relevante de seus antigos candidatos, mas conseguiram compensar o movimento atraindo políticos de outros partidos.

Para especialistas ouvidos pelo Estadão, os números refletem uma reorganização mais ampla do sistema partidário brasileiro, impulsionada pela mudança no equilíbrio de forças políticas desde 2018 e por alterações nas próprias regras eleitorais que ampliaram os incentivos para que candidatos busquem legendas com estrutura maior, mais recursos e melhores perspectivas eleitorais.

PSDB. Entre os partidos de maior expressão, o PSDB é um dos casos em que essa reorganização aparece de forma mais clara. Dos candidatos que disputaram a eleição de 2022 pela legenda e voltam às urnas quatro anos depois, apenas 30,4% permaneceram no partido. Entre os que saíram, os principais destinos foram o PSD, com 13,4%, o MDB, com 11,5%, e o PL, com 7,8%.

A recomposição das fileiras tucanas também foi intensa. Entre os candidatos do PSDB em 2026 que já haviam concorrido quatro anos antes, apenas 22,4% estavam na própria legenda em 2022.

Para o cientista político Vinícius Alves, o caso tucano ajuda a “começar a contar a história” de uma transformação ampla do sistema partidário brasileiro. O professor aponta a eleição de 2018 como um ponto de inflexão desse processo.

Naquele ano, Jair Bolsonaro venceu a Presidência pelo então PSL e rompeu uma sequência de seis eleições, entre 1994 e 2014, em que PT e PSDB haviam ocupado as primeiras posições da disputa presidencial. Para os tucanos, a mudança foi particularmente desastrosa: Geraldo Alckmin terminou o primeiro turno com apenas 4,76% dos votos válidos.

Alves associa o enfraquecimento do PSDB à perda desse protagonismo nacional. Na avaliação do cientista político, o bolsonarismo passou a aglutinar parcelas do eleitorado antipetista que anteriormente encontravam nos tucanos sua principal alternativa eleitoral.

O presidente nacional do PSDB, Aécio Neves, reconhece espaço que a legenda deixou de representar e admite responsabilidade do partido nesse processo. “O bolsonarismo atua num vácuo que existia na sociedade, talvez até por falha nossa também, por incapacidade nossa de representar essa direita”, afirmou.

Na outra ponta está o PT, partido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição. Dos postulantes que disputaram cargos pela legenda em 2022 e voltaram às urnas este ano, 87,4% permaneceram no partido. Apenas 12,6% trocaram de sigla, principalmente em direção ao PSB, que recebeu 2,5% desses nomes, e ao PDT, com 1,6%.

A capacidade de retenção de quadros ocorre em uma legenda que também dispõe de forte estrutura financeira para a disputa eleitoral. O PT recebeu cerca de R$ 615,4 milhões do Fundo Eleitoral de 2026, a segunda maior fatia entre os partidos, atrás apenas do PL.

REPUBLICANOS. No Republicanos, a divisão é praticamente ao meio. Dos candidatos que disputaram pela legenda em 2022 e voltaram às urnas este ano, 50,4% permaneceram no partido, enquanto 49,6% trocaram de sigla. MDB, União Brasil e Podemos aparecem entre os principais destinos daqueles que saíram.

O partido conseguiu manter cerca de metade de seus candidatos, mas teve uma rotatividade maior que a do PT e menor que a das siglas mais esvaziadas. O movimento mostra que a troca de legenda também atingiu partidos que são competitivos nas eleições.

No PL, a maioria dos candidatos resistiu à troca de legenda. Dos nomes que disputaram pelo partido em 2022 e voltaram às urnas este ano, 59,8% permaneceram na sigla, enquanto 40,2% migraram. O Republicanos foi o principal destino, seguido pelo Podemos e pelo Novo. Ao mesmo tempo, o PL atraiu uma quantidade expressiva de políticos de outras legendas.

Entre os candidatos de 2026 que já haviam disputado a eleição quatro anos antes, apenas 47,5% estavam no PL em 2022.

A entrada de novos quadros ocorre quando o PL ocupa posição central na corrida presidencial como partido de Flávio Bolsonaro e dispõe da maior fatia do Fundo Eleitoral. A legenda recebeu cerca de R$ 881,7 milhões, à frente do PT, com R$ 615,4 milhões.

MDB. No MDB, a movimentação ocorreu nas duas direções. Entre os candidatos de 2022 que voltaram à disputa este ano, 55,5% permaneceram no partido e 44,5% migraram para outras siglas. PSD, PL e União Brasil foram os principais destinos.

Ao olhar para a composição atual, a renovação é ainda mais evidente: apenas 44,1% dos candidatos do MDB em 2026 que também concorreram quatro anos antes já estavam no partido.

PSD. Menos da metade dos candidatos que disputaram pela legenda em 2022 e voltaram às urnas este ano permaneceu no partido. Ao mesmo tempo, a composição de 2026 revela forte entrada de nomes externos: apenas 39,5% dos atuais candidatos que também concorreram quatro anos antes já estavam no PSD.

DANÇA DAS CADEIRAS. A intensidade das trocas também está relacionada a mudanças institucionais que aumentaram a pressão sobre os partidos por desempenho eleitoral. Para o cientista político Leandro Consentino, professor do instituto Insper, essas regras ampliam os incentivos para que políticos avaliem não apenas a identidade da legenda, mas também sua estrutura, seus recursos e sua capacidade de sobreviver e competir no sistema partidário.

Entre elas está a cláusula de desempenho ou de barreira. A regra estabelece um patamar mínimo para que os partidos tenham acesso ao Fundo Partidário e à propaganda gratuita no rádio e na televisão. A combinação entre mudanças nas regras e o rearranjo das forças políticas ajuda a explicar o cenário. “De modo geral, a migração ocorre em direção a legendas que se projetaram ou preservaram sua dimensão competitiva nas últimas eleições”, resumiu Vinícius Alves.

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