Artigos

‘Estamos no caminho para ser um banco focado em IA’

Felipe Lamounier, estrategista do Nubank, diz que conexão com a pesquisa de ponta é fundamental

Por Lucas Agrela, O Estado de S. Paulo, 30/09/2026

Graduado em Ciência da Computação, fundou a Hyperplane, que foi adquirida em 2024 pelo Nubank; é estrategista do banco

 

O Nubank foi criado no início da década passada e aproveitou o menor custo e a agilidade oferecidos pela chegada da computação em nuvem ao setor financeiro para competir com os grandes bancos. Agora, na era da inteligência artificial (IA), não quer ficar para trás e busca se transformar em um banco focado em IA, tanto nos processos internos quanto na oferta de atendimento e produtos aos clientes.

Para isso, conta Felipe Lamounier, estrategista do Nubank, em entrevista ao Estadão, o banco segue o caminho das grandes empresas globais de tecnologia, as chamadas de big techs. “Google, Meta, Amazon, Apple e a OpenAI, todas elas são o que são do ponto de vista de tecnologia e inovação porque investiram fortemente em pesquisa e atraíram excelentes pesquisadores ao longo da história”, diz Lamounier.

No último ano, o Nubank tem feito parcerias com universidades e centros de pesquisa focados na formação e na pesquisa sobre IA como o MIT Sloan, o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e a Unicamp, além de instituições de ensino nos Estados Unidos.

Lamounier diz ainda que o Nubank tem usado IA para viabilizar experiências de uso dos serviços com linguagem natural. Como no ChatGPT, hoje é possível enviar uma mensagem em texto para pedir ao aplicativo do banco digital para enviar um Pix para um amigo ou familiar. “Voz é o futuro”, diz. Essa experiência, chamada de conversacional, também tem sido adotada por bancos como Bradesco e Banco do Brasil.

A seguir, os principais trechos da entrevista:

 

Como a IA está mudando a rotina interna do Nubank?

Estamos passando por uma profunda transformação na nossa sociedade por causa do movimento da IA. A forma como as organizações e o próprio Nubank servem o cliente está mudando e tende a mudar ainda mais. Nosso grande objetivo é tornar melhor a vida dos clientes com ofertas mais adequadas, de acordo com o perfil de cada um. Por exemplo, melhorando o tempo de atendimento ou de resposta aos clientes. Estamos melhorando a forma como os clientes interagem com o Nubank e melhorando os processos internos. Exemplo disso é que conseguimos ser mais eficientes no nosso processo de recrutamento, na definição de orçamentos e nas nossas estimativas para servir os clientes com produtos mais baratos.

 

Recentemente, David Vélez, CEO do Nubank, falou a respeito de a IA reduzir a barreira tecnológica, permitindo que mais pessoas tenham acesso à tecnologia, mesmo que não saibam programar. Isso acelerou o desenvolvimento de produtos no Nubank ou chegou a mudar o perfil de contratação de pessoas?

O Vélez trouxe um índice em torno de 98% de utilização no Nubank. Isso mostra – e vou fazer uma brincadeira aqui – que, desde quem trabalha na portaria ou no café até quem trabalha na construção de modelos fundacionais de IA dentro do Nubank, tem de estar apto a usar ferramentas de inteligência artificial generativa. Não esperamos menos do que isso quando vamos contratar esses talentos. Da mesma forma, a mesma barra de exigência que colocamos dentro de casa para o uso e para difundir o desenvolvimento das pessoas nessas ferramentas nós também temos em relação às pessoas que estamos trazendo para o time.

 

Aos clientes, o Nubank tem uma experiência conversacional com o dinheiro que usa IA para permitir fazer um Pix, por exemplo, com uma mensagem simples no aplicativo. Por que veem isso como uma tendência?

A experiência conversacional é uma das grandes transformações que as plataformas de IA generativa têm trazido. Tentamos explorar ao máximo essa frente conversacional nas nossas iniciativas e produtos do Nubank. Conversacional é uma tendência forte e talvez seja uma das principais interfaces com as quais vamos interagir no futuro, seja em banking, varejo ou qualquer plataforma. Voz é o futuro.

 

O Nubank esteve no palco como parceiro durante o evento de expansão da OpenAI no Brasil, em agosto. A abordagem da empresa em relação a fornecedores de IA é agnóstica ou vocês estão mais próximos da OpenAI?

Sempre buscamos trabalhar com parceiros de ponta no mercado. Temos aqueles com os quais estamos sempre lidando e também soluções que são criadas internamente. Estamos de olho nos lançamentos de fronteira e comparando com o que criamos dentro de casa, vendo a eficiência e os resultados desses modelos internos e os de mercado. Com isso, tomamos as decisões do ‘build’ (composição com diferentes modelos de IA) na área de pesquisa que temos na empresa.

 

O Nubank tem feito pesquisas sobre inteligência artificial para desenvolver seus modelos?

Nos últimos anos, a nossa agenda tem sido reforçar o Nubank como uma marca que investe em pesquisa e desenvolvimento, principalmente em IA. Existe um conceito já muito profundo e difundido nos Estados Unidos, no universo das big techs, que são os AI Research Labs. Google, Meta, Amazon, Apple e a OpenAI, todas elas são o que são do ponto de vista de tecnologia e inovação porque investiram fortemente em pesquisa e atraíram excelentes pesquisadores ao longo da história. Estamos trilhando esse caminho. Temos um time com diversos pesquisadores, reduzindo o caminho entre o mundo acadêmico e o mercado da indústria financeira, e viceversa. Estamos plantando as sementinhas do futuro da formação de talentos para IA dentro desse universo financeiro.

 

O Nubank tem parcerias com universidades no Brasil?

Temos feito parcerias com algumas universidades para o desenvolvimento de pesquisas e construção de programas de estágio. Trazemos estudantes de doutorado que estão estudando em universidades de ponta para fazer um programa de estágio temporário conosco. No Brasil, temos parcerias com a Unicamp e com o ITA, por meio das quais chegamos mais cedo aos estudantes. Todo o mercado está vivendo a transformação da IA em que, a cada seis meses, o contexto muda, surgem ferramentas e produtos novos são lançados. O ritmo das universidades é diferente do movimento das empresas privadas. Com a IA, isso se acentuou bastante. Uma das coisas que nós encontramos para conseguir chegar cada vez mais cedo na formação dessas pessoas foi entregar a elas o que o mercado hoje exige para ajudar nessas formações e, consequentemente, encurtar o ciclo de treinamento e desenvolvimento dessas pessoas nas empresas. Em paralelo, temos um programa de PhD com estágio nos Estados Unidos, um Summer Internship. Quanto mais empresas e pessoas estiverem preparadas para jogar a nova dinâmica de IA, melhor para a comunidade, para o mercado e para a competitividade. É um movimento do qual o mercado se beneficia bastante, não só o Nubank.

ARTIGO1408

Print Friendly, PDF & Email

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *