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Anthropic alerta sobre riscos da IA à humanidade antes de vender ações

Em prospecto, criadora do Claude afirma que sistema pode apresentar comportamentos como manipulação e chantagem

Por Aramis Merki II, O Estado de S. Paulo, 01/10/2026

O prospecto de oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) da Anthropic alerta investidores para riscos que vão de comportamentos imprevisíveis dos modelos de inteligência artificial a possíveis ameaças existenciais à humanidade.

Ao mesmo tempo que expõe essas possibilidades, a empresa criadora do Claude apresenta números operacionais e financeiros, em um momento em que o mercado já se prepara para negociar a exposição à companhia. Além das ações, que devem chegar à Bolsa ainda neste ano, gestoras estão estruturando fundos de índice (ETFs) voltados ao ecossistema da Anthropic e outros instrumentos financeiros.

A companhia deve ir a mercado em novembro, com valor estimado em US$ 2 trilhões, segundo informações do prospecto obtido por Financial Times e Reuters. O documento mostra a velocidade de expansão da companhia, mas também o custo da corrida para desenvolver modelos de IA cada vez mais avançados.

A receita da Anthropic cresceu 12 vezes em 2025, para cerca de US$ 4,6 bilhões, enquanto o prejuízo operacional superou US$ 8 bilhões, segundo a Reuters. No resultado líquido, a companhia registrou perda de US$ 42 bilhões no ano passado e prevê compromissos de mais de US$ 500 bilhões com computação em nuvem e infraestrutura nos próximos anos.

O principal custo da Anthropic é justamente a capacidade computacional necessária para treinar e operar seus modelos, que a companhia normalmente aluga de outras empresas. Em 2025, os gastos com computação e infraestrutura chegaram a US$ 7,33 bilhões, mais da metade das despesas operacionais totais de US$ 12,65 bilhões, de acordo com a Reuters.

O peso dado aos riscos também chama atenção. Cerca de 80 das 261 páginas do prospecto são dedicadas a fatores de risco. Entre eles está o alerta de que sistemas de inteligência artificial mais avançados podem apresentar comportamentos difíceis de prever ou controlar, incluindo resistência a desligamentos, ocultação de informações, manipulação e chantagem.

 

AMEAÇA À HUMANIDADE.

O alerta ocorre em um momento em que as próprias empresas responsáveis pelo desenvolvimento dos modelos mais avançados discutem publicamente os limites de segurança da tecnologia. O presidente executivo da Anthropic, Dario Amodei, está entre os líderes do setor que têm defendido maior cautela no ritmo de desenvolvimento das ferramentas.

Na concorrente OpenAI, desenvolvedora do ChatGPT, o presidente da companhia, Sam Altman, afirmou em setembro que a companhia não fará uma oferta pública inicial em 2026 e classificou como inaceitável até mesmo uma possibilidade de 10% de a inteligência artificial contribuir para a extinção da humanidade. A decisão veio em meio a discussões sobre segurança e alinhamento dos sistemas, enquanto a OpenAI também adiou o lançamento de um novo modelo após testes internos apontarem problemas de segurança.

Na Anthropic, a história vem se desenvolvendo com contrastes entre os alertas e os planos de expansão. A companhia reconhece no documento que o desenvolvimento de sistemas mais avançados envolve riscos que ainda não podem ser plenamente previstos, ao mesmo tempo que projeta centenas de bilhões de dólares em investimentos em capacidade computacional. Para os investidores, o prospecto oferece, portanto, uma visão simultânea do potencial econômico e dos fatores negativos que podem afetar o negócio.

 

INSTRUMENTOS FINANCEIROS.

Enquanto o IPO não chega, o mercado financeiro já criou formas de se posicionar em torno da companhia.

Um dos exemplos é o Anthropic AI Lab Ecosystem ETF (ANTW), fundo lançado em agosto pela Harbor Capital Advisors. O veículo investe em empresas que podem se beneficiar do crescimento da Anthropic e de sua demanda por infraestrutura. Entre as maiores posições estão Alphabet (Google), Amazon, Microsoft, AMD, Broadcom e Micron, além de empresas de data centers e infraestrutura digital como TeraWulf, Hut 8 e Riot Platforms.

O fundo funciona, portanto, como uma maneira indireta de capturar a expansão da Anthropic antes mesmo de suas próprias ações chegarem ao mercado.

Já a gestora GraniteShares protocolou pedido de autorização de dois ETFs alavancados correlacionados à dona do Claude. Um com exposição diária de duas vezes para eventuais altas da ação, outro que é alavancado em duas vezes em uma posição que espera a queda do papel. Os fundos ainda não estão disponíveis para negociação e dependem da efetivação do registro e da abertura de capital da Anthropic.

A existência desses produtos antes mesmo da estreia da Anthropic mostra como o mercado já começa a construir instrumentos em torno de uma companhia que ainda precisa provar, no mercado público, se o crescimento de receita será suficiente para compensar a escala dos investimentos necessários para sustentar seus modelos.

A Anthropic foi fundada em 2021 por ex-membros seniores da OpenAI – incluindo os irmãos Dario e Daniela Amodei – com o objetivo de desenvolver sistemas de inteligência artificial alinhados, seguros e confiáveis.

Preocupados com os riscos associados ao avanço rápido e descontrolado da IA, os fundadores estruturaram a empresa como uma Public Benefit Corporation (Corporação de Benefício Público), buscando equilibrar o crescimento comercial com a pesquisa de segurança.

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