As redes sociais da China estão se tornando cada vez mais sombrias
Pessimismo ocupa parte do feed dos usuários em meio à desaceleração econômica e, às vezes, pode assumir um caráter subversivo
O Estado de S. Paulo, 18/09/2026. Este conteúdo foi traduzido com o auxílio de ferramentas de inteligência artificial e revisado por nossa equipe editorial.
Um dos vídeos mais populares do site chinês Bilibili nas últimas duas semanas é um guia quase sério sobre como sobreviver como uma pessoa sem-teto. Durma perto de lixeiras, onde os “suprimentos” são repostos, use papelão para se proteger da umidade e evite câmeras de vigilância, sugeriu o vídeo. Ele teve mais de 6 milhões de visualizações e chegou brevemente ao segundo lugar entre os vídeos do site.
Os espectadores, em tom de brincadeira, o chamaram de “Estudo da Juventude”, nome do programa de educação política da Liga da Juventude Comunista, e de “uma disciplina obrigatória para os jovens em 2026”.
O Partido Comunista Chinês passou anos tentando fazer da “energia positiva” o sentimento dominante na internet do país. As plataformas online, determina o partido, devem amplificar narrativas de conquistas econômicas, gratidão ao partido e confiança no futuro da China.
O descontentamento ocasionalmente irrompe após desastres, escândalos ou ações governamentais brutais. Mas, ultimamente, algo parece diferente. O pessimismo é persistente. Ele se tornou parte do feed cotidiano das redes sociais e, às vezes, pode assumir caráter subversivo.
O crescimento econômico da China está desacelerando. Uma prolongada crise imobiliária corroeu o valor do maior ativo de muitas famílias, enquanto os empregos se tornaram mais difíceis de encontrar e menos seguros. À medida que o mal-estar se aprofunda, mais usuários das redes sociais estão abandonando uma performance pública alegre e obediente e criando contranarrativas que a censura às vezes consegue apagar, mas não consegue refutar facilmente.
No RedNote, no Douyin, no Weibo e em outras plataformas populares, é possível percorrer uma infinidade de posts sobre salários baixos, escassez de empregos, queda no valor dos imóveis e medo do futuro. Alguns transformam suas dificuldades em humor sombrio. Outros sequestram posts e hashtags oficiais e transformam a propaganda em zombaria.
O aparato de censura da China ainda controla a internet. Mas a prolongada crise econômica está tornando mais difícil para o partido manter sua versão preferida de como o país está se saindo.
BICOS. A taxa oficial de desemprego entre os jovens da China chegou a 17,9% em julho. Mais de 200 milhões de pessoas agora trabalham no que o governo chama de “emprego flexível” – essencialmente, uma vasta economia de bicos.
Os jovens chineses têm dificuldade para encontrar emprego e estão se afastando do casamento e da paternidade e maternidade. As críticas às vezes se estendem a um território proibido – o líder Xi Jinping e o Partido Comunista.
Li Ying, conhecido por seu pseudônimo online, “Professor Li”, administra uma conta popular na plataforma social X que funciona como uma central de informações sem censura sobre a China. Ele e sua equipe monitoram de perto a esfera das redes sociais chinesas. Eles viram um aumento “exponencial” de posts e comentários pessimistas e até subversivos neste ano, disse ele.
“Em 2022, se víssemos um comentário online zombando de Xi Jinping, considerávamos que valia a pena compartilhálo porque poucas pessoas ousavam dizer coisas assim”, disse Li. “Hoje, vemos tanto disso que mal chama a atenção.”
Para os usuários das redes sociais, seus posts individuais podem parecer uma reflexão ou reclamação pessoal. Mas, coletivamente, eles oferecem uma visão da China em desacordo com a narrativa oficial.
Outros usuários estão usando as redes sociais como uma ferramenta de dissidência e subvertem a propaganda oficial para esse fim. Um vídeo no Douyin que proclamava o Partido Comunista como o maior partido do mundo recebeu 41 mil comentários praticamente idênticos, com fileiras de emojis de rostos chorando.
A tática se torna especialmente potente quando os usuários convergem para contas do governo e da mídia estatal. No mês passado, um post de uma mídia ligada ao Estado afirmou que a China havia inventado o voo humano durante a dinastia Ming, séculos antes do Ocidente. O post provocou muitos comentários sarcásticos. “Tenho sintomas de abstinência se passo um dia sem ouvir que a China venceu”, dizia um deles. “Quando vamos inventar fins de semana de dois dias?”, dizia outro.
A censura da internet na China se tornou cada vez mais implacável ao longo da última década. Isso torna ainda mais impressionante o enorme volume de posts pessimistas e comentários sarcásticos. Ao mesmo tempo, é difícil saber por que alguns posts sobrevivem tempo suficiente para se tornarem virais enquanto outros desaparecem rapidamente.
O governo tentou conter a energia negativa. Em 2023, o Ministério da Segurança do Estado classificou os esforços para “falar mal da economia chinesa” como uma questão de segurança e política. No ano passado, o órgão regulador da internet ordenou que as plataformas suprimissem afirmações de que o trabalho duro ou a educação eram inúteis, assim como memes e piadas que espalhassem pessimismo.
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