Repulsa popular aos data centers
Por Celso Ming, O Estado de S. Paulo, 18/09/2026
A inteligência artificial (IA) passou a ser fonte de grande pressão eleitoral nos Estados Unidos. Por duas razões: porque se alastrou o medo de que o ser humano perca o controle das máquinas à medida que elas estão se autoprogramando, com risco de destruir a humanidade; e porque cresceu a repulsa popular aos data centers, sem o que a IA não funciona.
Essa coluna trata desta segunda rejeição, motivada pelos impactos econômicos, ambientais e sobre a qualidade de vida que a presença dessas instalações vem trazendo.
Os data centers aumentam substancialmente o consumo de energia elétrica e de água, impõem mudanças na infraestrutura local e produz barulho que tira o sossego dos vizinhos.
Levantamento do Data Center Watch, consultoria especializada no setor, aponta que, nos Estados Unidos, nos últimos dois anos, US$ 18 bilhões em projetos foram bloqueados e outros US$ 46 bilhões sofreram atraso pela repulsa de grupos organizados. São pelo menos 142 grupos de ativistas que atuam em 24 Estados. Passaram a discutir regras de zoneamento e formas de impedir que os custos da expansão sejam repassados aos consumidores.
Na Virgínia, por exemplo, autoridades começaram a exigir que desenvolvedores arquem antecipadamente com determinados custos de transmissão. No Texas, novas conexões de data centers à rede elétrica foram suspensas enquanto o Estado revisa as estimativas de consumo de energia.
No Brasil, principal mercado de data centers da América Latina, com mais de 200 unidades em operação, essa resistência começou a atuar. Há duas semanas, o Senado aprovou o ReData, regime que concede incentivos tributários para empresas que instalem ou ampliem essas estruturas. A medida busca reduzir certas desvantagens brasileiras. Pelos cálculos da consultoria Brasscom, a construção de um data center de grande porte impõe despesas 34% mais altas do que nos Estados Unidos, principalmente pela tributação sobre equipamentos de tecnologia. O programa deve impor renúncias fiscais de R$ 7,2 bilhões até 2028.
A pergunta que exige resposta é por que os data centers vão beneficiar o Brasil quando outros países os estão rejeitando.
Para Alexandre Chaia, professor de Economia do Insper, a resposta depende de como o programa for implementado. A instalação dos data centers, diz, precisa gerar valor, sem pressionar a oferta de mão de obra, de energia e de água nas regiões escolhidas.
Antônio Carlos Diegues, professor de Economia da Unicamp, vê no ReData uma oportunidade de ampliar a soberania nacional sobre os dados e de aproveitar a matriz elétrica renovável brasileira. Ele sugere priorizar regiões que dispõem de excedentes de energias solar e eólica, especialmente no Nordeste, e vincular os projetos a contrapartidas em pesquisa e desenvolvimento.
ARTIGO1393
