IA de código aberto desafia liderança de OpenAI e Anthropic
Soluções adaptáveis à realidade de empresas e países reduzem dependência de gigantes de tecnologia
Por Lucas Agrela, O Estado de S. Paulo, 26/09/2026
Os modelos de inteligência artificial (IA) abertos estão avançando no mundo e começam a desafiar sistemas desenvolvidos por empresas como OpenAI e Anthropic, que usam modelos proprietários. Embora ainda não sejam superiores aos principais modelos de código fechado, a diferença de desempenho está diminuindo. A principal vantagem dos modelos abertos é que outras companhias e outros países podem ter acesso à tecnologia, adaptá-la e usá-la em seus próprios computadores e servidores.
O mais famoso desses exemplos é o DeepSeek, que sacudiu a Bolsa americana no começo de 2025 ao mostrar que era possível desenvolver um modelo competitivo gastando uma fração do que as grandes empresas de tecnologia investem. Ao contrário dos sistemas fechados, cujo funcionamento é mantido em grande parte em segredo, os modelos abertos permitem maior acesso à tecnologia e podem ser modificados para diferentes usos. Isso acaba transformando os grandes modelos de linguagem (LLMs) em commodities para a criação de novas aplicações tecnológicas.
MAIS COM MENOS. Essa disputa entre os modelos totalmente proprietários e os abertos também faz parte da corrida de desenvolvimento da IA mais avançada que acontece entre Estados Unidos e China. Os modelos chineses chamam a atenção pela capacidade de fazer mais com menos recursos. As restrições americanas à venda de chips avançados, como os da Nvidia, levaram as empresas chinesas a buscar formas de tornar seus modelos mais eficientes, reduzindo a necessidade de equipamentos muito potentes.
Um exemplo é a Moonshot AI, empresa chinesa que desenvolve a família de modelos Kimi e recebeu investimentos de gigantes como Alibaba e Tencent. A companhia demonstrou em julho que modelos de pesos abertos (open-weight) podem rivalizar com as ferramentas proprietárias do Vale do Silício por um custo menor. Diferentemente de modelos fechados como o GPT-4 (OpenAI) ou o Claude (Anthropic), em que só é possível interagir por meio das plataformas das empresas criadoras, os modelos de pesos abertos disponibilizam os parâmetros matemáticos treinados da IA. Com isso, qualquer empresa, ou país, pode baixar modelos como a família Kimi, personalizá-los e executá-los em seus próprios servidores.
“Se olharmos para os números do meio do ano de 2026, a China não tem apenas ‘relevância’ – ela está ditando o ritmo da inteligência de fronteira aberta. Em abril, o DeepSeek lançou o V4, um modelo de 1,6 trilhão de parâmetros sob licença MIT que custa uma fração da API do GPT-5.5 e roda na linha Ascend, os chips da Huawei”, diz Kenneth Corrêa, professor de MBA da FGV.
“No fim de julho, o Kimi K3 da Moonshot AI assumiu o primeiro lugar absoluto no ranking de código frontend do Arena.ai (comparador de IAs), batendo os modelos mais pesados da OpenAI e da Anthropic. Centenas de gigabytes do K3 foram liberados para qualquer empresa baixar”, completa.
‘NOVOS CARROS’. Na visão de Anderson Soares, coordenador científico do Centro de Excelência em Inteligência Artificial da Universidade Federal de Goiás, os modelos abertos representam um desafio importante para as grandes empresas INFRAESTRUTURA. Para Corrêa, de IA, que lideram o da FGV, quando os modelos mercado global. “Sem dúvida é de IA se tornam commodities, uma ameaça do ponto de vista o foco dos investimentos comercial. Na prática, faz com muda para a infraestrutura que esse motor de soluções seja que viabiliza o uso em escala usado para montar novos dessa tecnologia. Ou seja, os carros parecidos e competitivos. data centers ficam sob os holofotes Eles não serão uma Ferrari, do mercado global. mas serão competitivos e “Quando o código-fonte e os muita gente vai aceitar bem. Isso pesos do modelo viram bem público, atrapalha em nível substancial o gargalo econômico migra os planos dessas grandes imediatamente da camada empresas para se estabelecerem de software para a infraestrutura no mercado global.” tangível: chips, energia, data
Para Victor Pavarin Tavares, centers e tratamento de dados. coordenador de pesquisa no Ter o modelo de graça sem ter InternetLab, centro de pesquisas a infraestrutura para processálo sobre Direito e tecnologia, é como receber a planta da os modelos abertos são importantes melhor refinaria do mundo, para a soberania dos países mas não ter nem o petróleo na era da IA, por reduzir a bruto nem a usina de energia dependência de decisões de para ligar as máquinas.” • empresas do exterior que podem afetar o funcionamento de serviços públicos ou de áreas relevantes da economia.
“Essa disponibilização de pesos abertos é muito importante para a soberania dos países, porque cria alternativas que são muito competitivas. Elas fazem com que investimentos muito substanciais não sejam mais tão necessários. É criada outra dependência, que é a continuidade dessa disponibilização, mas é muito menos crítica do que a dependência comercial de soluções fechadas.”
Tavares explica que os modelos precisam ser realmente abertos para que sejam úteis a outros países, como o Brasil, para manterem suas soberanias tecnológicas. Ele diz que, no contexto da IA generativa, não basta abrir o código-fonte, mas também ter transparência em relação aos conjuntos de dados que compõem o modelo. Caso contrário, essa abertura seria pela metade.
“Como não temos recursos para treinar modelos do zero, talvez uma estratégia viável seja o desenvolvimento local se concentrar em aprimorar modelos abertos existentes por meio de fine-tuning (adaptação para tarefas específicas), usando dados específicos do contexto brasileiro e do Sul Global, em vez de começar do zero”, diz Tavares.
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