O preço humano da corrida pela IA
Por Fábio Gallo, O Estado de S. Paulo, 26/09/2026
Enquanto o Conselho de Segurança das Nações Unidas discute os riscos de uma inteligência artificial capaz de escapar ao controle humano, Wall Street tenta responder a uma pergunta bem mais imediata: quanto valem as empresas que estão tentando construi-la?
Uma tecnologia que, ao mesmo tempo, promete ganhos extraordinários de produtividade, exige investimentos de bilhões de dólares e pode gerar riscos que os próprios desenvolvedores dizem ainda não saber controlar.
Como esses investimentos estão sendo financiados, crescem as preocupações porque o sistema financeiro tem aumentado a sua exposição ao risco. Assim, temos duas camadas de riscos: o risco financeiro da indústria de IA e o risco da IA dentro do sistema financeiro.
Há ainda um paradoxo assustador nessa corrida. Um estudo do NBER (National Bureau of Economic Research) mostra que a disputa pela inteligência artificial geral, a AGI, cria um conflito entre velocidade e segurança. Como chegar primeiro pode valer muito, cada competidor se vê incentivado a acelerar. Quanto mais acirrada a disputa, portanto, maior a pressão para correr e menor o incentivo para alguém pisar sozinho no freio.
O paradoxo surge quando o prêmio pela vitória se torna grande demais e, a partir de certo ponto, os competidores continuam acelerando mesmo quando os riscos envolvidos já tornam a corrida, no conjunto, mais prejudicial do que vantajosa.
A lógica ajuda a entender também a dimensão geopolítica do problema. Para Washington, a questão não é apenas se seria prudente desacelerar o desenvolvimento da IA, mas se é possível fazê-lo acreditando que Pequim continuará avançando.
Para a China, vale o raciocínio inverso. Quanto maior o prêmio econômico, militar e estratégico de chegar primeiro, mais difícil se torna para qualquer participante pisar sozinho no freio. Todos até podem ter razões para desejar uma corrida mais segura, mas ninguém quer correr o risco de chegar em segundo lugar.
Há uma disputa também para decidir de quem serão os modelos, os padrões e o ecossistema tecnológico que o restante do mundo utilizará. E isso aumenta ainda mais o custo econômico de pisar sozinho no freio.
O fato é que esse paradoxo está saindo dos modelos acadêmicos e entrando no mundo real. Citando Hans Jonas: Aja de modo que os efeitos da tua ação sejam compatíveis com a permanência de uma autêntica vida humana sobre a Terra.
Na corrida pela AGI, está acontecendo o contrário – quanto maior o poder prometido, maior a pressa para chegar primeiro. A despeito dos alertas de Sam Altman e de seus colegas, o mundo avança entusiasmado para descobrir onde, afinal, fica a beira do precipício.
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