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‘O mundo mudou e hoje prevalece a lei da selva’

Para diplomata, novas tarifas são uma ‘mudança estrutural’ na política comercial dos Estados Unidos

Por Carlos Eduardo Valim, O Estado de S. Paulo, 18/07/2026

Foi embaixador do Brasil em Londres, entre 1994 e 1999, e em Washington entre 1999 e 2004; hoje é palestrante e consultor

Ex-embaixador do Brasil em Washington entre 1999 e 2004, Rubens Barbosa avalia que governo, empresários e parte dos analistas brasileiros ainda não compreenderam a mudança de estratégia dos Estados Unidos ao elevar tarifas sobre produtos brasileiros. Para ele, a política do presidente Donald Trump representa uma ruptura na ordem comercial internacional e exige uma nova postura do Brasil, baseada em negociação, maior abertura econômica e fortalecimento da competitividade doméstica. Leia os principais trechos da entrevista.

 

O que significa a nova imposição de tarifas dos EUA ao Brasil? Muitos analistas atribuem a medida a fatores políticos ou à falta de negociação do governo brasileiro.

Acho que a mídia, o governo e muitos analistas não entenderam o que está acontecendo. Essas tarifas representam uma mudança estrutural da política comercial americana. Não são uma medida voltada apenas ao Brasil, mas ao mundo inteiro. O objetivo é atrair investimentos para os Estados Unidos, reduzir o déficit comercial e afastar a China de determinados mercados.

 

Mas por que o Brasil foi um dos países mais atingidos?

Desde o início fomos enquadrados entre as tarifas mais altas. Isso não tem relação com a política interna brasileira, como muitos dizem. O principal motivo é que o Brasil está entre os poucos países relevantes que não negociaram um acordo comercial com os EUA.

 

As tarifas são um instrumento para forçar negociações?

Elas fazem parte de um processo de investigação contra mais de 80 países. O Brasil foi acusado em seis ou sete áreas, apresentou sua defesa, mas os argumentos não foram aceitos. Os países que negociaram acordos comerciais ficaram de fora das tarifas mais elevadas.

 

A estratégia adotada pelo governo brasileiro foi correta?

A nota do governo diz que o Brasil não se curvou às exigências americanas. O Reino Unido, por exemplo, abriu seu mercado para o etanol dos EUA. O Brasil recusou negociar etanol e outros setores. Essa exigência americana contraria as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), então faz sentido resistir para proteger interesses nacionais. Mas isso não significa que a motivação das tarifas tenha relação com Bolsonaro ou com a política interna brasileira.

 

O governo precisa entender melhor o cenário?

É preciso compreender o que está acontecendo e por que o Brasil recebeu tarifas maiores. Cheguei a ver análises dizendo que o problema era o Pix, mas não é isso. Havia temas que poderiam ser negociados. O Brasil recusou convites para participar de iniciativas sobre minerais estratégicos e do chamado escudo das Américas. Por outro lado, empresários conseguiram incluir cerca de 2.100 produtos na lista de exceções. Isso ocorreu porque convenceram o governo americano de que as tarifas prejudicariam empresas e consumidores dos próprios Estados Unidos. Foi uma negociação conduzida pelo setor privado, não pelo governo brasileiro.

 

Há riscos na estratégia de evitar negociações e discutir retaliações?

Agora existe um componente político importante. Nunca houve uma crise política dessa dimensão com os Estados Unidos. Ela começou com críticas do presidente Lula a Donald Trump e foi escalando. Depois vieram declarações do secretário de Estado americano, Marco Rubio, e do ministro Mauro Vieira. Se o Brasil retaliar, a crise pode ganhar outra dimensão. Dos cerca de 200 países afetados pelas tarifas, praticamente todos negociaram. União Europeia, Índia, Vietnã e vários países asiáticos buscaram acordos. Apenas a China entrou em uma guerra tarifária direta.

 

O confronto direto favorece os EUA?

Se houver retaliação, os americanos também poderão retaliar e atingir áreas além do comércio. Uma coisa é a narrativa política interna; outra é o interesse nacional. O Brasil precisa proteger suas empresas acima de disputas ideológicas ou partidárias.

 

Então o caminho é negociar?

O nome do jogo é negociação. Hoje o Brasil não tem canais políticos consolidados nem com a Casa Branca nem com a Secretaria de Comércio americana. As conversas realizadas até agora foram superficiais. Não houve uma agenda estruturada sobre temas de interesse comum, como terras raras. Há ainda outros fatores que podem complicar a relação, como a investigação envolvendo o ministro Alexandre de Moraes na Justiça americana e as reclamações das big techs sobre propostas de regulação no Brasil. O fato é que hoje não temos condições políticas favoráveis para lidar com os americanos. E há uma mudança importante: com eles, atualmente, não existe mais o sistema de regras que prevalecia antes. É a lei da força. O mundo mudou, e nós ainda não nos ajustamos. Hoje prevalece a lei da selva.

 

O Brasil tem condições de enfrentar uma escalada?

Temos muitas vulnerabilidades. Se retaliarmos, ficaremos sujeitos a contrarretaliações sobre as quais não teremos controle. O Brasil não tem cacife para esse confronto. Quem sofrerá mais serão as empresas brasileiras.

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