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Nobel da Paz para María Corina revigora oposição na Venezuela

Prêmio retoma atenção internacional para a catástrofe ditadura de Maduro na Venezuela

Por Adriana Loureiro Fernandez – The New York Times, O Estado de S. Paulo, 11/10/2025

Mais de um ano depois das eleições presidenciais da Venezuela, marcadas por fraudes generalizadas, a líder da oposição, María Corina Machado, foi laureada ontem com Nobel da Paz. O anúncio chega em um momento delicado para os venezuelanos e atrai a atenção global para a deterioração dos direitos humanos sob o regime de Nicolás Maduro – que até ontem não havia se manifestado. O prêmio dá a María Corina, que vive na Venezuela, em local não divulgado, nova força na luta contra a ditadura chavista.

“É um grande impulso a todo o esforço que temos feito e é uma demonstração de que tanto sacrifício não ficará em vão”, celebrou o porta-voz da oposição David Smolansky, em declaração ao Estadão. “O Nobel a projeta ainda mais para quem a conhecia pouco ou não a conhecia. Hoje, todo mundo soube quem é María Corina Machado e qual tem sido a sua luta e todo o movimento que a acompanha.”

Ao anunciar o prêmio, o presidente do Comitê Norueguês do Nobel, Joergen Watne Frydnes, disse que María Corina foi premiada “por seu incansável trabalho de promoção dos direitos democráticos para o povo da Venezuela e por sua luta para alcançar uma transição justa e pacífica da ditadura para a democracia”. “É um dos exemplos mais extraordinários da coragem civil na América Latina em tempos recentes”, disse.

Nas redes sociais, María Corina dedicou o Nobel a Donald Trump, que era um dos indicados. “Hoje, mais do que nunca, contamos com Trump, o povo dos EUA, os povos da América Latina e as nações democráticas do mundo como aliados para alcançar a liberdade e a democracia. Dedico este prêmio ao povo sofrido da Venezuela e a Trump por seu apoio decisivo à nossa causa.”

María Corina vive em lugar não divulgado desde as eleições do ano passado, o que provavelmente seja um empecilho para que ela viaje a Oslo para receber o prêmio. Observadores dizem que o Nobel dá fôlego a um movimento que havia perdido o protagonismo, diante de tantas crises e guerras.

“É um reconhecimento não apenas à sua trajetória política e ao seu empenho em lutar pela volta à democracia da Venezuela, mas também é um reconhecimento aos mais de 20 anos em que os venezuelanos estão lutando pacificamente por uma transição democrática”, afirma a cientista política venezuelana María Isabel Puerta Riera, da Universidade do Estado do Colorado e do Valencia College, na Flórida.

SÍMBOLO. “É um alento para a oposição venezuelana. María Corina é a principal líder que permaneceu no país. Houve outros líderes importantes que se viram obrigados a deixar a Venezuela”, disse o cientista político e professor da UERJ Paulo Velasco. “Ela ficou, mesmo na clandestinidade, mesmo sabendo que poderia sofrer assédio das forças bolivarianas, ela permaneceu e é uma referência por conta disso. A oposição fica muito órfã desses líderes que deixaram o país.”

Apesar disso, segundo Velasco, é difícil que a premiação ajude em alguma mudança política na Venezuela. “Um Nobel não vai afetar Maduro. Não vai mudar o equilíbrio de forças, fora ou dentro da Venezuela, que é o que poderia tirá-lo do poder. Nesse ponto, não sei se ele está se importando muito com isso”, disse.

BLINDAGEM. “Para a oposição, o prêmio é um balão de oxigênio, uma fonte de legitimação importante, um reconhecimento para seus anos de luta”, afirmou o pesquisador Carlos Malamud, do Real Instituto Elcano, da Espanha, à rede britânica BBC.

O que certamente muda, segundo o analista político venezuelano Xavier Rodríguez Franco, é a blindagem a María Corina. “O Nobel lhe oferece uma imunidade simbólica muito importante, já que certamente agora o regime de Maduro, se conseguir capturá-la, prendê-la ou torturá-la, estará fazendo isso contra alguém laureado com um Nobel da Paz”, afirma.

Uma prova de que o prestígio de María Corina mudou foram os elogios que chegaram da prateleira de cima da política global. O ex-presidente americano Barack Obama mandou felicitações, em uma mensagem em defesa da democracia na Venezuela. António Guterres, secretário-geral da ONU, disse que o Nobel da venezuelana era “uma prova da resiliência e do espírito democrático da Venezuela”.

REAÇÃO. Assim que recebeu a notícia, a líder opositora, que já conquistou três importantes prêmios internacionais – além do Nobel, o Sakharov e o Václav Havel –, falou por telefone com o diplomata Edmundo González Urrutia, exilado na Espanha, que a substituiu como candidato nas últimas eleições e foi considerado vencedor por vários países. “O que é isso? Não acredito, estou chocada!”, disse María Corina. “Foi um golpe muito forte ( contra o regime)”, respondeu Urrutia.

O prêmio coincide com uma operação militar dos EUA no Caribe, que Maduro considera uma “ameaça” ao regime. O governo americano acusa o ditador venezuelano de estar por trás de uma grande rede de narcotráfico internacional.

María Corina manifestou apoio a essa mobilização militar, que já empreendeu vários ataques a pequenas embarcações no Caribe, perto da costa venezuelana. Segundo os EUA, elas transportavam drogas – embora os americanos não tenham apresentado nenhuma evidência.

As ações, segundo especialistas, poderiam ser consideradas execuções extrajudiciais e violações do direito internacional. A Casa Branca, para dar verniz jurídico aos ataques, que já mataram mais de 20 pessoas, preparou um memorando ao Congresso dizendo que os EUA estão em um “conflito armado” contra cartéis de narcotraficantes, considerados “combatentes ilegais”.

Analistas, e principalmente o regime chavista, temem que a mobilização militar sirva de pretexto para uma intervenção, como a que derrubou o ditador do Panamá Manuel Noriega, em 1989, também acusado de envolvimento com o narcotráfico. Em caso de mudança no comando em Caracas, María Corina seria a maior beneficiada, já que se consolidou como a antítese do chavismo. Outros líderes opositores, como Leopoldo López e Henrique Capriles, caíram no ostracismo.

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