A pompa de Xi e a realidade chinesa
Enquanto projeta poder para o mundo, Pequim lida com sua fragilidade econômica interna
Por Notas e Informações, O Estado de S. Paulo, 25/05/2026
Há poucos dias, quando recebeu o presidente dos EUA, Donald Trump, em visita oficial, o governo de Xi Jinping não poupou esforços para exibir ao americano inúmeros sinais do poderio da China.
Mas o que nenhuma recepção grandiosa consegue mascarar por muito tempo é que a mesma China que assombra o mundo com sua capacidade industrial e tecnológica enfrenta desafios cada vez mais urgentes no plano doméstico.
Pequim sabe que o papel de fábrica do mundo que a China exerce atualmente gera insatisfação crescente nos diversos países inundados por produtos chineses. Também por isso, a liderança comunista vem buscando, sem sucesso até agora, promover uma transição estratégica. Em vez de abastecer os mercados globais, a China passaria a consumir fatias mais amplas do que produz.
No entanto, por mais que, nos últimos anos, Pequim tenha lançado mão de medidas para estimular a população local a comprar, os chineses seguem relutando em fazê-lo. Em abril, as vendas ao varejo cresceram apenas 0,2% em relação ao mesmo período de 2025. O resultado não apenas veio substancialmente abaixo da alta de 2% projetada por economistas, como foi o mais fraco desde dezembro de 2022, quando o país começava a relaxar sua rígida política de “covid zero”.
Símbolo da vulnerabilidade chinesa, o setor imobiliário segue alvo de extrema desconfiança da população, após o estouro de crises entre 2020 e 2021, que levaram incorporadoras à falência e causaram uma forte desvalorização dos preços dos imóveis.
Temerosos de que as casas sigam perdendo valor, ou que nem mesmo sejam finalizadas e entregues, como já aconteceu, os chineses evitam comprar imóveis.
A fraqueza do mercado imobiliário arrasta os indicadores de investimento chineses para baixo. Nos primeiros quatro meses do ano, o índice de investimento em ativos fixos teve contração de 1,6%, quando o esperado era uma expansão de 1,6%.
Aos desafios econômicos internos, somam-se as surpresas externas. Por mais capacidade que tenha de armazenar combustível e de produzir energia renovável, o conflito prolongado no Irã também tem reflexos consideráveis para Pequim.
Por ora, a segunda maior economia do mundo parece ser uma vencedora do conflito que opõe EUA e Israel ao Irã, mas que na prática afeta a economia global como um todo, ainda que de forma assimétrica.
Em abril, as exportações chinesas cresceram 14,1%, quase o dobro do esperado. Isso aconteceu porque compradores estrangeiros anteciparam encomendas, estratégia que costuma ser adotada em momentos de instabilidade como o que o mundo atravessa agora.
A esta altura, porém, cada dia extra de indefinição e de fechamento do Estreito de Ormuz aumenta o risco de recessão mundial. Nesse cenário, torna-se mais difícil para a China, que já enfrenta o baixo dinamismo de seu mercado doméstico, seguir vendendo para outras nações, que precisam lidar com custos crescentes de energia em plena alta temporada no Hemisfério Norte.
Não há cerimônia pomposa que contenha os efeitos deletérios de uma desaceleração econômica global.
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