O Nobel de Economia e nós
Academia Sueca reconhece papel da inovação como indutor do crescimento, algo que deveria inspirar o Brasil
Por Notas & Informações, O Estado de S. Paulo, 14/10/2025
O trio de pesquisadores Joel Mokyr, Philippe Aghion e Peter Howitt foi agraciado ontem com o Prêmio Nobel de Economia de 2025. Eles desenvolveram trabalhos complementares sobre o papel da inovação como indutor do crescimento econômico, o que inclui o aprofundamento do conceito de “destruição criativa” popularizado pelo livro Capitalismo, Socialismo e Democracia, do economista austríaco Joseph Schumpeter.
A indústria automobilística do início do século 20 é um exemplo de destruição criativa, cujo produto, o automóvel, fez desaparecer as carruagens a cavalo, bem como a função de condutor de charrete. A produção em larga escala de carros movidos a combustível fóssil gerou forte expansão econômica e melhora da qualidade de vida de uma população com cada vez mais acesso aos carros, criando milhares de empregos, ao mesmo tempo em que eliminou outros, tais como os de cocheiros.
Hoje, a chamada inteligência artificial (IA) é o exemplo mais fascinante – e também assustador – de destruição criativa. Fascinante porque pode permitir que mecanismos virtuais ofereçam soluções para problemas complexos como os de saúde, o que, por óbvio, afeta positivamente o bem-estar da população.
Mas se no século passado o advento do automóvel eliminou funções como a de cocheiro, a IA tem o potencial de extinguir milhões de postos de trabalho mundo afora, mesmo os de profissionais altamente especializados.
Eis o motivo pelo qual o crescimento econômico, como bem destacou a Academia Sueca, responsável pelo Nobel, não pode ser considerado como algo garantido. Ao mesmo tempo em que é necessário promover constantemente a inovação, é preciso estar preparado para lidar com os efeitos colaterais do processo, entre os quais o desemprego. Em países extremamente desenvolvidos, já se debate se os recursos financeiros oriundos da inovação tecnológica devem ser distribuídos entre aqueles que fatalmente deixarão de ter ocupação profissional.
Por outro lado, um dos pesquisadores premiados, o francês Philippe Aghion, está preocupado com o fato de que a Europa está perdendo a corrida da inovação tecnológica para os EUA e a China. De acordo com ele, a Europa não tem ecossistema de financiamento nem instituições adequadas para a inovação.
Embora a crítica de Aghion tenha sido centrada nos europeus, ela cabe perfeitamente ao Brasil. Sem educação de qualidade, sem política de inovação e sem projeto de futuro, o País se vê preso em um ciclo interminável de fomento a setores ineficientes e ultrapassados. Um verdadeiro descalabro, ainda mais porque, por mais atrasada que esteja a Europa em relação à China e aos EUA, o padrão de vida de boa parte dos europeus é significativamente melhor do que o dos brasileiros.
Sem política efetiva de inovação, o Brasil corre o risco de rebaixar o padrão de vida de sua população como um todo. Em vez de gastar como se não houvesse amanhã, o governo, tão viciado em programas sociais, bem faria se fomentasse a inovação. Ainda mais porque, sem ela, não há crescimento nem o que repartir.
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