Bolha dourada?
Por Fábio Gallo, O Estado de S. Paulo, 18/10/2025
Uma das coisas que aterrorizam o mundo econômico é a possibilidade de uma bolha de preços. Desde a bolha das Tulipas em 1636, passando pela “.com” no final dos anos 90 e do subprime em 2007, para citar algumas impactantes, o mundo sempre está atento à possibilidade de uma crise de grandes proporções.
As bolhas econômicas são fenômenos multifatoriais, dentro de um sistema que envolve variáveis macroeconômicas, financeiras, psicológicas e institucionais. Uma das principais causas é o medo de perda da oportunidade, comportamento conhecido como Fomo: fear of missing out (literalmente, medo de ficar de fora). Isso está ocorrendo atualmente em relação ao preço do ouro. Há cinco anos, uma onçatroy (31,1034768 gramas) de ouro valia US$ 1.900; um ano atrás, em torno de US$ 2.700; e neste mês bateu a barreira dos US$ 4.300, alta de quase 60%.
A maior alta do ouro desde a década de 1970 está sendo alimentada pelo “Fomo dourado”, como diz o Financial Times. Desde 2022, os bancos centrais, principalmente dos países em desenvolvimento, têm comprado o metal para diversificação de suas reservas além do dólar. Recentemente, as compras institucionais e do varejo tiveram novo recorde com US$ 26 bilhões investidos em fundos lastreados em Bolsa.
Admite-se que o tarifaço de Trump, o crescimento menor da China, corte de juros por parte do Fed, com a elevação de juros no longo prazo, são causas que tenham trazido um medo geral que levou a muitos buscarem o porto seguro do ouro.
Essa instabilidade econômica e política traz muitas manchetes que, associadas à voz dos influencers, amplificam a aceleração dos preços, trazendo um efeito manada. O ouro é um terreno fértil para essa situação porque a narrativa de porto seguro, como um “ativo que não falha”, faz com que o preço dispare e traga o medo de ficar de fora e isso acelera as entradas tardias.
Há um fator técnico que amplifica boatos: o relatório COT (Commitments of Traders) da CFTC (o regulador de derivativos dos EUA) está suspenso durante o shutdown. Sem a fotografia semanal das posições de fundos, o mercado voa às cegas, e a imaginação – portanto, o Fomo – preenche os espaços. Há sinais robustos de Fomo e risco de bolha. Aliviam essa tensão as compras de bancos centrais, que seguem altas e ajudam a explicar o patamar. A queda esperada de juros reais também reduz o “custo de carregar” ouro. Isso não anula a hipótese de bolha, mas impede a sentença incontestável. O Fomo é o combustível emocional das bolhas, mas não o fósforo nem o oxigênio. Ele traz a exuberância irracional dos preços. Mas, sem liquidez, o Fomo é barulho; sem narrativa, é ruído; mas com ambos, vira fogo.
ARTIGO 1315
