Plano para a linha de metrô ‘dos parques’ de SP acelera
Jardins, Ibirapuera e Mooca devem receber estações da 16-Violeta; certame está previsto para 2025, mas já recebe críticas em audiências
Por Priscila Mengue, O Estado de S. Paulo, 12/10/2025
Com a entrega dos estudos de viabilidade técnica e financeira e do projeto referencial, a implementação da Linha 16Violeta chegou às últimas etapas antes da publicação do edital e posterior leilão, previsto para o primeiro semestre de 2026. A proposta passou por inclusão e retirada de estações, mudanças no trajeto e outras alterações após “acelerar” no último ano e se tornar uma das principais frentes de avanço da rede de metrô de São Paulo. Mas foi alvo de críticas nas primeiras consultas públicas.
Embora não tão conhecida, a linha deve passar por alguns dos bairros mais valorizados e movimentados da cidade, como Pinheiros, Jardins e Mooca. Também visa a atender a uma antiga reivindicação de parte dos paulistanos: a abertura de uma estação de metrô na frente do Parque do Ibirapuera. Os Parques da Independência e Aclimação igualmente devem ser contemplados.
O projeto teve mais detalhes divulgados na semana passada, com o início do período de consultas e audiências públicas anteriores à publicação do edital. A aceleração da proposta se deve em parte ao interesse da Acciona em participar do leilão, o que está em uma Manifestação de Interesse Privado (MIP) divulgada em agosto de 2024. A multinacional espanhola foi selecionada em um chamamento público do Estado neste ano para a elaboração dos documentos técnicos necessários para a licitação, entregues em junho. De acordo com informações do Estado, os R$ 42,3 milhões estimados pelos estudos serão ressarcidos pela vencedora da parceria público-privada (PPP). Essa documentação inclui algumas mudanças no projeto original, como a extensão para a Estação Teodoro Sampaio. A previsão é de que as obras da fase um – entre os distritos de Pinheiros e de Vila Formosa, da zona oeste à zona leste – sejam entregues em dez anos, em 2035. A segunda etapa, até Cidade Tiradentes, no extremo da zona leste, ficaria para cinco anos depois, em 2040, com trajeto ainda a ser definido pelo projeto.
FUROU AFILA? O governo do Estado admite que o interesse externo pesou, mas nega que outras linhas tenham ficado de lado e fala em projetos concomitantes. Diretor de Assuntos Corporativos da estatal Companhia Paulista de Parcerias, Augusto Almudinre conhece que alinha acelerou. O executivo destaca, contudo, que outros projetos de ampliação da rede metroferroviária também estão avançando, como o trem até Sorocaba, no interior do Estado de São Paulo, e os recentes leilões de linhas da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). “Este aqui, porque a Acciona demonstrou interesse, agente avançou com ele, mas não afeta negativamente no restante do pipeline. É mais um projeto que agente está tocando simultaneamente.”, afirmou.
Além disso, ele destacou que a Linha 16-Violeta não teria “furado a fila” de estudos de novas linhas e expansões. Isso porque outras iniciativas estão tramitando em paralelo. “Os cronogramas são parecidos”, afirmou em referência às linhas 20-Rosa (da zona oeste paulistana até Santo André, no ABC Paulista) e 22-Marrom (de Cotia, na Grande São Paulo, até a zona oeste da capital).
O representante do governo do Estado de São Paulo também rebateu as críticas de que a construção começará por uma área nobre e com transporte mais consistente, a zona oeste, deixando para o fim do traçado da zona leste. Ele explicou os motivos para a extensão da linha até a Estação Teodoro Sampaio, em Pinheiros, na zona oeste da capital paulista, — que, até então, atenderia apenas as futuras Linhas 20Rosa e 22-Marrom. Isso se deve em parte à primeira estação inicialmente apontada para a linha 16-Violeta (a Oscar Freire) já funcionar pela Linha 4 Amarela, o que exigiria que o tatuzão – uma máquina de grandes proporções, usada para escavar túneis principalmente para obras do Metrô – avançasse mais antes de ser removido.
“( Por causa do funcionamento da Oscar Freire). o Metrô ( em estudos prévios) já previa uma extensão de túnel perto da Teodoro Sampaio. A gente achou que, já que chegaria ali perto, em fazer uma tripla integração entre as linhas 16, 20 e 22. Era uma oportunidade”, afirrmu Almudin. “Geraria bastante demanda essa nova integração.”
PARCERIA PÚBLICO-PRIVADA. A implementação da linha está prevista para ocorrer por meio de parceria público-privada (PPP) de 31 anos, com nove anos de obra. O modelo é semelhante ao atual da Linha 6Laranja, cujo consórcio responsável é liderado justamente pela Acciona. A previsão é de leilão no primeiro semestre e assinatura no contrato no terceiro trimestre, com concorrência nacional e internacional. A concessionária selecionada será a que propor menos despesas ao poder público.
A estimativa é de aporte (investimentos estaduais iniciais) de R$ 27,1 bilhões, com R$ 97,9 bilhões em contraprestações (distribuídas ao longo do contrato). Isto é, custo total estimado de R$ 125,1 bilhões, de acordo com a modelagem econômico-financeira. Os valores não incluem a fase dois, de modo que os custos dessa implementação tendem a estar em posterior aditivo ao contrato. Em nota, a Acciona reafirmou o interesse em participar da PPP. “Está alinhado à estratégia da companhia de fortalecer sua atuação em mobilidade urbana e infraestrutura sustentável no Brasil”, justificou.
A primeira fase da linha contemplará 16 estações, da Teodoro Sampaio, na zona oeste paulistana, até Abel Ferreira, na leste, com duração média de 34 minutos. Ela irá abranger bairros de classe média e valorizados da cidade, como Pinheiros, na zona oeste, Jardins e Aclimação, no centro expandido, Vila Mariana, Moema e Ipiranga, zona na sul, e Mooca e Anália Franco, na zona na leste da cidade.
DETALHAMENTO. Quatro estações tiveram o Decreto de Utilidade Pública (DUP) publicado em setembro: Jardim Paulista e Nove de Julho, nos Jardins, Ana Rosa, no distrito da Vila Mariana, e Álvaro Ramos, no distrito da Água Rasa. Esses despachos são necessários para indicar as áreas a serem futuramente desapropriadas — o que inclui a travessa nos Jardins cuja venda a um empreendimento de alto padrão foi sancionada pelo prefeito Ricardo Nunes (MDB).
Segundo o diretor de Assuntos Corporativos, os despachos começaram por esses perímetros porque são os que têm menos chance de alteração. Nesses locais, há áreas mais verticalizadas e grande valorização imobiliária. “Ali, não tem outro espaço que não seja aquele para construir a estação, e construir um grande empreendimento imobiliário naquelas regiões com fundas fundações poderia afetar a passagem da Linha 16”, disse. “No entanto, a concessionária pode adotar outra solução.”
Ele salientou, contudo, que o proprietário poderá continuar no local e fazer alterações até a desapropriação. “Não está proibido de fazer nada. Você só vai saber que vai ser desapropriado no futuro. E a desapropriação segue os parâmetros da lei, padrões de mercado etc”, explicou. Enquanto a Estação Teodoro Sampaio foi incluída, o novo trajeto exclui a Estação Basílio da Cunha. Antes, era prevista para estar entre as Estações os Parques da Aclimação e Independência. Também não está mais completada uma conexão com a Estação Paraíso, já existente, como se cogitou anos atrás, dentre outras alterações. O motivo apresentado é que uma expansão teria impacto significativo na Avenida 23 de Maio.
POLO INDUSTRIAL DA MOOCA.
Na primeira audiência pública do leilão, na terça-feira, a maioria dos presentes criticou a instalação do pátio de trens na Avenida Henry Ford, um dos principais polos industriais da capital paulista, na Mooca. Diversos empresários e representantes do setor falaram em possíveis impactos na produção e em empregos.
A Associação Avenida Henry Ford, Mooca e Região apontou risco de “demissão em massa” e “impacto devastador e irreversível”, no local, destacando que representa 228 empresas, 15,9 mil empregos diretos e 60 mil indiretos. O grupo argumenta que muitas empresas estão na região há décadas e seria muito difícil encontrar outra opção de endereço, além de afirmar que mesmo as que não forem desapropriadas enfrentariam efeitos negativos se o projeto fosse levado a diante.
Em resposta, os representantes da SPI indicaram que as empresas diretamente afetadas representam 1,6 mil empregos, ante as 600 vagas diretas que o pátio gerará. Também destacaram que as desapropriações são processos longos, de alguns anos, de modo que haveria previsibilidade para mudanças de endereço. O Estado respondeu que estaria aberto a sugestões de novos endereços. Além disso, destacou que o atual perímetro previsto para o pátio tem quase metade do tamanho do anteriormente cogitado.
NAMING RIGHTS. Além dos valores pagos pelo Estado e pelos passageiros, estima-se que a concessionária tenha um retorno em “receitas acessórias”. A estimativa é de que sejam de R$ 20,9 milhões (projeção pessimista) a R$ 33,2 milhões no primeiro ano de operação. No último ano, poderá chegar a R$ 58,1 milhões, com todas as estações em pleno funcionamento. Dentre as possibilidades indicadas, estão publicidade (sonora, painéis de LED, interativas etc), locação e cessão de espaços (lojas, eventos e outros), contrato de naming rights (inclusão de marca em nomes de estações) e serviços (guarda-volumes, cobrança de passagem a trens de carga, venda de excedente de produção de energia, estacionamento). A decisão sobre a exploração será da concessionária.
ARTIGO1328
