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‘A chance de ajuste fiscal se Lula for reeleito é zero’

No caso de vitória da oposição, economista vê espaço para ‘ajuste marginal’, também insuficiente

Por Álvaro Gribel, O Estado de S. Paulo, 20/11/2025

Pesquisador associado do Insper, é organizador do livro ‘Para não esquecer: políticas públicas que empobrecem o Brasil’

O economista Marcos Mendes tem baixa expectativa de que o Brasil consiga implementar uma agenda de ajuste fiscal em 2027, após as eleições presidenciais do ano que vem. Se a vitória for do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ele avalia como “zero” a chance de reequilíbrio das contas públicas: “Eu acho que um ajuste fiscal (de Lula) será um tremendo estelionato eleitoral, porque ele não vai fazer campanha nesses termos. Ele vai fazer campanha prometendo mais coisas”.

Já em caso de vitória da oposição, Mendes vê uma chance apenas “marginal” de um ajuste efetivo – “que não será suficiente para tirar o País de uma escalada da dívida pública e de uma taxa de juros de equilíbrio mais alta”, diz.

Ele entende que o mundo vive um momento de populismo na área fiscal, com agendas de expansão de gastos nas maiores economias do mundo, e que o debate polarizado das redes sociais torna o quadro ainda mais difícil para que os governantes implementem essa agenda.

Para ele, há risco de que o ajuste seja feito da pior forma no País: via aumento da inflação (uma forma de calote disfarçado na dívida), com o Banco Central em algum momento “jogando a toalha” do controle sobre os preços.

A seguir, os principais trechos de entrevista da série do Estadão sobre a questão fiscal:

O Brasil tem um encontro marcado com o ajuste fiscal em 2027, ganhe situação ou oposição?

Infelizmente, acho que não temos esse encontro marcado, mas a gente deveria ter. O mundo político brasileiro e o cenário internacional estão sob o signo do populismo. Ele tem duas características. A primeira é entregar o máximo de benefícios no curto prazo e não se preocupar com o custo, deixar para frente. E a segunda é criar inimigos, fazer o “nós contra eles”, criar polarização, dividir a sociedade para mobilizar a militância e conseguir colocar a culpa nos outros do que não está dando certo.

Qual a sua visão em caso de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva?

Se o Lula for reeleito, é zero a chance de ajuste fiscal. Porque um ajuste fiscal será um tremendo estelionato eleitoral, ele não vai fazer campanha nesses termos. Ele vai fazer campanha prometendo mais coisas, prometendo passagem de graça, mais aumento de salário mínimo, como fez na última campanha e como tem governado.

E no caso de vitória da oposição?

Se alguém da oposição for eleito, você tem chance de um ajuste marginal que não será suficiente para tirar o País de uma escalada da dívida pública e de uma taxa de juros de equilíbrio mais alta. Algum ajuste fiscal você pode ter, mas longe daquilo que é necessário.

Por quê?

Se nós tivermos uma mudança de governo, vai ser algum partido com base no Centrão. E o Centrão é cliente de políticas de expansão fiscal, emendas parlamentares, benefícios fiscais, tem uma conexão muito grande com lobbies. Então, você vai ter de ter um trabalho de coordenação do Executivo muito grande, uma capacidade política de criar uma coalizão, de distribuir poder, de fazer as lideranças partidárias enquadrarem os seus deputados e senadores, de forma a fazer reformas. Aí, você teria alguma chance de alguma reforma marginal, mas nem de perto do que precisa ser feito de estrutural para fazer a dívida pública cair e fazer a taxa de juros de equilíbrio cair.

E qual a consequência desses cenários?

O que estamos vendo no cenário internacional? Uma leniência muito grande com o desequilíbrio fiscal. Tem o ( presidente dos EUA, Donald) Trump aprovando déficits primários grandes, déficit nominal na faixa de 6% do PIB. A França com dificuldade muito grande de fazer ajuste. A Europa tendo de gastar para se rearmar. Na parte monetária, Trump comandando um assédio ao banco central para reduzir taxas de juros. Quando isso aparece lá fora, acaba se internalizando no Brasil e, com isso, deixa de ter aquela pressão para ajustar.

O que mais preocupa ao olhar para as contas públicas?

Quando o arcabouço fiscal foi lançado, o Ministério da Fazenda fez uma apresentação em que projetava a dívida bruta para 2026 em 76% ou 77% do PIB, no pior cenário. Ela vai estar em 83% ou 84%. Efetivamente, o arcabouço não deu certo. Além disso, eles criaram uma série de artifícios para gastar por fora do Orçamento, seja liberando dinheiro para fazer operação de crédito, seja criando despesa fora do Orçamento, como o programa Pé-de-Meia. Somando tudo isso, você está tendo uma expansão fiscal muito maior do que aparece nos números. Esse é o primeiro ponto.

O que mais?

O segundo ponto é que você não consegue fazer no Brasil um ajuste fiscal radical de um dia para o outro. Há muita indexação, muita despesa obrigatória, despesas vinculadas ao crescimento da receita. Tem de fazer ajuste ao longo do tempo. Mas tem de começar logo, porque, dado que não se consegue fazer abruptamente, não se pode esperar chegar uma crise para fazer na crise. Mas isso parece que acaba tirando o incentivo para o ajuste, porque o custo político é maior do que os ganhos de curto prazo.

Qual seria o item número um da agenda de reformas?

Sem dúvida, a política de salário mínimo. Dar aumentos reais ( acima da inflação) todos os anos para o salário mínimo, com o impacto na Previdência e na assistência social, é insustentável. Isso em dez anos come metade da reforma da Previdência que foi feita em 2019. Se você parar de aumentar o salário mínimo acima da inflação, corrigir só pela inflação, no primeiro ano o ganho vai ser desprezível, cerca de R$ 15 bilhões. Mas, no décimo ano, essa diferença vai estar em R$ 240 bilhões.

É melhor trocar o arcabouço fiscal ou tentar inserir despesas dentro do teto da regra?

A sociedade brasileira já provou que não tem maturidade para seguir um teto de gastos. Teve o teto de gastos no governo Temer, foi furado. Esse governo fez um outro teto, foi furado. Não adianta passar um ano discutindo uma nova lei de regra fiscal para, no dia seguinte em que a lei for aprovada, começar a ser desrespeitada. O governo tem de partir para as reformas que efetivamente precisam ser feitas.

Quais?

Não temos coesão social suficiente para acreditarmos que estamos todos no mesmo barco e precisamos fazer esse ajuste. Fica cada um querendo passar na frente. Então, a gente tem de ir para as reformas. Tem de reformar a política de salário mínimo. Tem de desindexar despesas em relação à receita. Tem de reformar o microempreendedor individual, que é uma bomba previdenciária. Tem de criar mecanismos para evitar novas bombas fiscais, como a recente aprovação da PEC da previdência dos agentes comunitários de saúde. A previdência dos militares tem de entrar na conta. Regra para os supersalários, revisar benefícios tributários. A velha história do abono salarial, que não acaba nunca. Redesenhar o seguro-desemprego. Tem uma agenda imensa que pode ser feita, mas que é muito difícil de fazer.

O sr. é muito crítico ao crescimento das emendas parlamentares. Elas são parte do problema?

Isso é um fenômeno totalmente brasileiro. Não existe em outros lugares do mundo nas dimensões que acontecem aqui. Nos EUA, representa 1% da despesa discricionária ( não obrigatória). Aqui, já passou de 20%. É o interesse privado eleitoral de cada parlamentar que captura o Orçamento público. Você cria um desequilíbrio na competição eleitoral. Alguém que não é parlamentar vai estar concorrendo contra alguém que está com um bolso cheio de dinheiro para distribuir para o seu eleitorado, ou para beneficiar o financiador da sua campanha.

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