‘Vamos ter de criar uma nova versão do mundo que funcione’
‘Vamos ter de criar uma nova versão do mundo que funcione”
Por Luiz Guilherme Gerbelli, O Estado de S. Paulo, 08/02/2026
Vencedor do Prêmio Nobel em 2001, o econ o mi s t a Mi c h a e l Spence avalia que o mundo precisa superar uma certa nostalgia, porque as transformações na economia mundial serão permanentes. E as razões para essas mudanças não têm a ver apenas com a presidência de Donald Trump nos Estados Unidos. Também foram impulsionadas por diversos choques, como a pandemia e as guerras, que causam rupturas.
“Todo mundo está lidando – sejam empresas, cidadãos ou governos – em como navegar por essas mudanças. E parece instável porque nos acostumamos com o modelo antigo. Houve, por um tempo, uma espécie de nostalgia de que seria um choque e seria possível voltar. Mas não podemos. Vamos ter de criar uma nova versão disso que funcione”, afirma.
Embora o mundo esteja enfrentando um cenário desconhecido, Spence demonstra um certo otimismo com o crescimento global diante da possibilidade de que diversos países se beneficiem do uso da inteligência artificial.
O economista esteve no Brasil no fim de janeiro para participar do Latin America Investment Conference, evento do banco UBS e do UBS BB. Em relação à economia brasileira, Spence destaca a melhora nos números da desigualdade, diz que a dívida elevada traz restrições e reconhece que é uma missão difícil lidar com os limites da política fiscal e garantir a inclusão dos mais pobres.
“É mais arte do que ciência. E certamente não é só economia. Isso é liderança real. A boa notícia é que, pelo menos da última vez que olhei, a desigualdade medida no Brasil, especialmente indicadores padrão como o coeficiente de Gini, estava caindo bastante”, afirma.
A seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao Estadão.
Como o senhor avalia a agenda imposta pela presidência de Donald Trump?
De forma um pouco lenta, mas constante, as pessoas têm reconhecido que a arquitetura da economia global, tal como se desenvolveu após a Segunda Guerra, está sendo alterada de maneira permanente. Isso não é inteiramente por causa do Trump. É resultado de choques de múltiplas fontes, como pandemia, guerras e outros eventos severos que são graves o suficiente, e de alcance global, para causar rupturas. Uma das coisas que começou vários anos atrás, mas acelerou e certamente reacelerou na gestão
Trump, é um padrão de diversificação para se proteger contra as várias falhas nessa rede complexa que chamamos de cadeias globais de suprimento. Essa é uma mudança e ela já está em andamento. O segundo grande evento é que o arranjo do pós-guerra foi patrocinado principalmente pelas grandes economias, que eram as desenvolvidas, e de forma destacada os Estados Unidos. Os EUA, sob Trump, definitivamente se retiraram disso. É menos certo se isso é permanente, mas é uma mudança muito grande. O que não mudou é que a economia global ainda está negociando – e muito.
Por quê os países seguem negociando?
Se você olhar os dados da OMC ( Organização Mundial do Comércio), eles estão se mantendo. As coisas estão se deslocando para todos os lados. A América representa 25% da economia global. Os outros 75%, como Europa, China, Brasil, Índia, estão ocupados negociando, investindo e movimentando tecnologia. Nesse sentido, acho que a ideia de que está tudo desmoronando não é exatamente correta.
Mas vai ser um mundo mais complicado?
Não há apenas incentivos do setor privado para diversificar e se proteger de pontos únicos de falha no sistema, mas também políticas que são desenhadas para produzir segurança nacional e econômica. Todo mundo – empresas, cidadãos e governos – está tentando entender como navegar por essas mudanças. E parece instável porque nos acostumamos com o modelo antigo. Houve, por um tempo, uma espécie de nostalgia de que seria um choque e seria possível voltar. Mas não podemos. Vamos ter de criar uma nova versão disso que funcione. E ela acomoda questões como segurança nacional, segurança econômica. E não há um grande ator dominante que possa impor quaisquer regras que vamos escolher. Os Estados Unidos deixaram cerca de 60 instituições multilaterais. Isso é parte do novo cenário.
Apesar de tudo isso, a economia global continua resiliente, como o senhor disse, com o crescimento do comércio. Poderia detalhar as razões disso?
Em parte por causa do que eu disse: mesmo que as regras sejam menos claras, grande parte do mundo está aproveitando enormes oportunidades e simplesmente seguindo em frente como se tudo fosse o mesmo. Na Ásia, ( a região) Leste e Sul estão crescendo muito bem. Há uma aceleração do crescimento em partes significativas da América Latina. A economia americana está crescendo. E as oportunidades associadas a avanços em tecnologia e ciência estão sendo cada vez mais amplamente compreendidas e aproveitadas. A chamada revolução da IA ( inteligência artificial) tem duas partes. Uma é a construção desses tipos de modelos de fronteira e outras capacidades. Isso ainda está em andamento. Os principais atores nisso são a China e os Estados Unidos, porque é muito caro e é preciso uma escala enorme para fazer isso. Mas não é tudo o que existe. Essas ferramentas, então, passam a ser aplicadas na ciência, na biomedicina, na indústria farmacêutica, na descoberta de medicamentos, no tratamento do câncer, na ciência dos materiais, na previsão do tempo. As pessoas perceberam que você não precisa ser grande e rico para empregar essas coisas, para resolver problemas específicos nos negócios, na economia, na educação e na saúde.
Essa segunda parte está aberta para todos os países…
Para todo mundo, para praticamente todos os países do mundo. Você precisa de alguma infraestrutura, precisa que a internet móvel seja acessível e tenha um custo razoável em termos de dados e, certamente, precisa de eletricidade, que não está universalmente disponível em alguns países de baixa renda. Mas a grande maioria das pessoas vive em países em que todas essas coisas não são um problema. E há um grande número de jovens empreendedores, com energia e senso do que faz diferença na vida das pessoas. Trata-se de uma explosão global de atividade empreendedora. E está ocorrendo em todos os lugares.
Para um país líder, como os Estados Unidos, qual será a consequência de uma economia menos concentrada em algumas nações?
Nós não sabemos, porque ainda não fizemos essa jornada antes exatamente dessa forma. Temos experiências passadas de um grande avanço científico e tecnológico que se espalhou pela economia. As lições desses episódios dizem algumas coisas. A primeira é que, em geral, eles levam mais tempo do que se imagina no início. Ou seja, o potencial não se transforma em realidade instantaneamente. Nos anos 2000, tivemos uma grande entrada da tecnologia e a automação de certos tipos de empregos chamados empregos rotineiros. Rotineiro significa codificável, e codificável significa que os humanos não apenas sabem como fazer, mas sabem exatamente os passos lógicos que seguimos para fazer isso. E, se você conhece os passos lógicos, pode escrevê-los em código e, em princípio, uma máquina pode fazê-lo. E fizemos muito disso, e isso teve um grande efeito. As pessoas ficam com medo. Elas acham que talvez essa rodada de tecnologia seja a mesma coisa, porque o avanço em inteligência artificial é descrito de uma certa forma assim: as máquinas agora conseguem fazer coisas que nós conseguimos fazer e, às vezes, melhor do que nós e certamente mais rápido. Eu conversei com um monte de economistas do trabalho, e eles queriam saber para onde tudo isso estava levando, e eu disse que não podemos saber isso com antecedência. Eles disseram por quê? E eu disse: porque, lá fora, no mundo, há milhões e milhões de entidades que estão tentando descobrir como usar isso.
Quando a globalização surgiu, vimos uma redução da pobreza no mundo. Agora, o senhor acha que vamos enfrentar a mesma situação ou o oposto, com a desigualdade aumentando?
Talvez, eu seja um pouco otimista quanto a isso, mas não vejo nada que sugira que vá piorar dramaticamente as coisas em escala global. Existe um padrão que pode tornar a desigualdade pior dentro dos países. É por isso que essa questão da difusão é tão importante. Se há alguns poucos setores avançados, você pode ter 80% das pessoas trabalhando em setores que ficaram para trás, então pode haver um aumento, em vez de queda, da desigualdade. As pessoas perguntam: vamos ter um salto de produtividade? E a resposta potencial é provavelmente sim, embora não saibamos com certeza.
E como o senhor vê o papel da China nesse processo?
A China tem muitas oportunidades em virtude da sua trajetória de crescimento. Primeiro, a economia é enorme, o que dá a vantagem de escala. Segundo, eles são um gigante na manufatura: 31% da manufatura global é chinesa. Mas o país tem desafios de curto prazo. Há desequilíbrios, como o setor imobiliário. É um vento contrário para a economia. O desemprego dos jovens está mais alto do que estão acostumados, inclusive entre pessoas altamente educadas. Esses são os pontos fracos, e eles sabem disso. A China precisa que o consumo doméstico aumente. E isso não é fácil. Essa transição leva tempo. Será preciso pegar pessoas que constroem pontes e infraestrutura e transformá-las em pessoas que prestam serviços de alto nível.
Não é possível fazer isso do dia para a noite…
É uma grande mudança estrutural. Agora, como eles vão se comportar no sistema global? Eles ( chineses) reciprocamente não vão confiar em nós (Estados Unidos), e vice-versa. Eles parecem comprometidos com alguma versão de uma estrutura multilateral. Eles são uma grande força no Leste, Sudeste e Sul da Ásia. A Índia está crescendo, então também é uma parte importante desse quadro, mas eles têm relações complicadas por causa do Mar do Sul da China. Então parte do que a China está fazendo – e eles nunca tinham feito isso antes – é uma afirmação de poder, quase da mesma forma que o Trump buscar afirmar os Estados Unidos no Hemisfério Ocidental. E isso cria complexidade na relação entre a China e seus parceiros asiáticos de comércio e investimento. A postura geral da China agora é mais complicada e, em certa medida, contraditória, de uma forma que não era antes, quando eles estavam apenas cuidando da própria vida e focados em crescimento e desenvolvimento. O papel que os chineses vão desempenhar vai depender do comportamento deles. Dou um exemplo: a relação com a Europa é muito complicada porque eles estão, de certa forma, sem serem muito explícitos, apoiando a Rússia na guerra da Ucrânia. As pessoas acham que a Rússia é uma potência, que tem muito petróleo e gás e armas nucleares. Mas a economia dela tem o mesmo tamanho da economia italiana, onde eu moro. E não ouvi ninguém dizer que a Itália vai ser uma potência global em alguma coisa.
E como a economia brasileira pode se aproveitar desse momento?
Eu acho que alguns dos seus colegas mais jovens que são empreendedores já descobriram isso. Há um comércio eletrônico em expansão, um ecossistema de fintech em expansão. Não estão apenas indo bem financeiramente, mas estão fazendo coisas boas para as pessoas, com padrões de crescimento inclusivo. Então, o que isso faz é inverter a resposta à sua pergunta: não atrapalhe.
Internamente, se discute muito a questão fiscal do Brasil. Temos uma dívida alta para um país emergente. Isso é uma preocupação para o investidor internacional?
Sim, é um problema. As restrições de dívida são reais. Elas limitam o que se pode fazer. Se você conseguir acelerar o crescimento, a dívida se torna menos restritiva ao longo do tempo. Mas isso é arriscado. Se você ignora no curto prazo esperando crescimento e ele não vem, você fica em situação pior. A proposição geral é que você pode ser conservador demais ou também pode ter, por razões políticas compreensíveis, uma postura fiscal com redistribuição demais e investimento de menos. Lembro de olhar para a configuração fiscal da Índia há 15 ou 20 anos. Nas áreas rurais, havia muitos subsídios, feitos ao custo da infraestrutura rural. Ou seja, você subsidiava no curto prazo a população mais pobre, mas retirava um insumo crítico para o crescimento futuro. Depois eles encontraram uma forma de parar com isso. Mas politicamente isso é difícil. Politicamente, se você não lidar com grandes parcelas da população de baixa renda, não pode simplesmente ignorá-las e focar apenas na agenda de crescimento, porque você não será eleito de novo. Eu costumava achar que muitas dessas coisas eram apenas questões econômicas, mas a parte realmente difícil é a parte criativa, que os melhores políticos e formuladores de políticas fazem, porque eles precisam sequenciar as coisas de forma politicamente aceitável. É mais arte do que ciência. E certamente não é só economia. Isso é liderança real. A boa notícia é que, pelo menos da última vez que olhei, a desigualdade medida no Brasil, especialmente indicadores padrão como o coeficiente de Gini, estava caindo bastante. Isso também não acontece da noite para o dia. Eu acho que, em grande parte, episódios de desenvolvimento bem-sucedidos, inclusive aqui, ocorrem com escolhas mais ou menos – não impecáveis – sábias e pragmáticas. O Brasil está crescendo de forma bastante razoável agora e cresceu, depois da Segunda Guerra, a uma média de mais de 7% ( ao ano).
Mas o Brasil ainda está preso na armadilha da renda média…
Sim, mas eu não acho que isso seja uma condição permanente, a menos que alguém decida que é. Eu conheço as restrições – a dívida alta é uma restrição real –, mas elas não são fatais. Na Itália, a dívida soberana em relação ao PIB é de 135%. Isso é uma restrição bastante severa às atividades do governo. Nós não crescemos muito desde que o euro foi introduzido. Não é uma condição muito boa. Eu não quero desconsiderar isso, mas não é preciso ser fatalista. Você pode ter crescimento real sem ter de mobilizar uma tonelada de recursos do governo para que isso aconteça.
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