‘Fórmula do lulismo e do bolsonarismo precisa se esvair’
Em nome de projeto para o País, ex-presidente afirma ser preciso superar personalismo eleitoral”
Por Roseann Kennedy, O Estado de S.Paulo, 10/07/2026
Dez anos após apresentar o Ponte para o Futuro, documento que embasou a política econômica de sua gestão, o ex-presidente Michel Temer (MDB) lança agora a Estrada para o Futuro. No novo texto, já enviado aos presidenciáveis, propõe uma medida imediata: um pacto de união nacional. Para Temer, o Brasil precisa superar o personalismo eleitoral, pois “o eleitorado está esperando projetos para o País e não disputa de nomes”. Em entrevista à Coluna do Estadão, o emedebista tratou da atuação para o Banco Master. Leia, a seguir, trechos da entrevista.
Qual a principal diferença entre o ‘Estrada para o Futuro’ e o antigo ‘Ponte para o Futuro’, do MDB?
Precisamos parar no País de ter eleição disputada de nome contra nome. Deve ser programa contra programa. Isto dá uma civilidade política extraordinária. No Brasil, nos últimos tempos, temos nome contra nome, não preciso nem mencioná-los, mas você sabe quais são. O fundamental para aumentar a credibilidade política no País é ter projeto. O Ponte nasceu quando eu era vice-presidente para servir ao governo, embora a então presidente (Dilma Rousseff) tenha visto o documento como oposição. O Estrada para o Futuro é uma sequência do anterior.
O que de seu governo precisaria ter sequência agora?
Conseguimos ter uma higidez fiscal no meu governo e estamos propondo isso para o próximo. A higidez fiscal traz a redução da dívida pública e dos juros — que você paga, vai embora e não tem efeito positivo para o País. Também é preciso retomar a Segurança Pública. Criamos o Ministério da Segurança Pública e o SUSP. E deu certo.
Como o ‘Estrada para o Futuro’ pode conter o populismo orçamentário?
Recomendo a leitura dos artigos das 15 figuras expressivas que colaboraram no documento. Seguir o que está lá vai dar outro tom à economia, segurança, saúde, educação e minorias. O teto para os gastos públicos é uma medida popular, mas não é populista, porque impede o presidente e o Congresso de usar indiscriminadamente as verbas. Só se pode gastar o que se arrecada. São coisas triviais que fortalecem a ideia de medidas em favor do povo e não do governo.
O sr. tem a sensação de que, em vez de atravessarem a ponte, implodiram-na?
Por isso formulei o Estrada para o Futuro. Escrevi umas 15 páginas e telefonei a 15 especialistas de variadas áreas, que desenvolveram mais cinco ou seis páginas cada. Deu o documento de umas cem páginas. O objetivo central é esse: o eleitorado está esperando projetos para o País e não disputa de nomes.
O sr. já entregou aos presidenciáveis?
Mandei entregar pessoalmente e pela internet, e teve boa repercussão. Encontrei dois deles, o Ronaldo Caiado e o Romeu Zema, que me disseram: “Nós vamos examinar”.
O que é mais imediato para ser adotado no início do próximo governo?
Proponho que, nos dez primeiros dias, aquele que for eleito convide os outros Poderes, entidades da sociedade civil e até a oposição para fazer um pacto republicano, um grande pacto para o País. Isso dará um sentido de unidade, com significação interna e internacional.
Como vai participar da campanha presidencial?
Não pretendo participar, apenas colaborar, fazendo essa pregação. Não vou a palanque. Vou ver o que o meu partido vai fazer, o MDB, e depois tomo uma decisão. Mas é decisão de voto.
E como o sr. avalia a polarização atual no Brasil?
Sou a favor da polarização de projetos, de programas, porque a divergência e a oposição são fundamentais na democracia para impedir o poder absoluto. Mas o que há no Brasil é radicalização. Houve época em que o ‘nós’ era muito significativo e tinha uma militância expressiva. Em um dado momento, o ‘eles’ também se organizou com militância significativa. Isso dividiu o País, brasileiros, famílias, instituições, corporações e até os Poderes. Isso não é útil para o Brasil. Se não dermos um exemplo de unidade de propósitos, estaremos mal no País.
A frase ‘nós contra eles’ ficou famosa na campanha de Lula. Começou ali?
Começou ali, mas se ampliou de tal maneira que a outra ala resolveu se organizar nos mesmos moldes, com uma conduta incompatível com o sistema democrático. São palavras pesadas, que criam uma falta de formalismo, solenidade e liturgia, o que prejudica o País.
Qual estratégia o sr. propõe para restabelecer o diálogo entre os Poderes?
Cumprir rigorosamente o texto constitucional. As autoridades do Legislativo, Executivo e Judiciário são constituídas pelo povo. Quando a Constituição diz que os Poderes são independentes e harmônicos entre si, a harmonia é uma determinação constitucional. Se todos a cumprirem, você não tem radicalização, porque a Constituição determina a solução pacífica e não agressiva de todos os conflitos.
O STF perdeu a mão nos próprios limites?
Acusam o Supremo de se meter em todos os assuntos, mas foi o constituinte que tratou de tudo e deu essas competências. Você não pode discutir as competências do Supremo; pode discutir o mérito das decisões, se está decidindo bem ou mal.
Onde o Supremo está decidindo mal?
Um exemplo é a dosagem das penas do 8 de Janeiro. Houve objeções, não em relação à competência do STF para punir aqueles que agrediram os poderes — não podemos negar isso. O que houve foi uma discussão de mérito: a penalidade foi exagerada. O Congresso estabeleceu nova legislação, reduzindo penalidades de determinados delitos. Como a norma penal favorável ao réu retroage, as pessoas podem ir ao Supremo pedir para redosar a pena, a dosimetria. Este é um exemplo clássico.
Há o que se discutir sobre a atividade dos ministros?
Estou convencido de que esta objeção ao Supremo não ajuda o País. E não ajuda não é em função do Supremo, mas em função de uma ou outra atividade de ministros. Por exemplo, se parentes de ministros podem advogar ou não. O sujeito não tem culpa de ser parente de quem está num tribunal superior. Se há parentes advogando, quem é ministro não pode julgar aquele caso, tem que se declarar suspeito. E isso restaura a credibilidade dos tribunais.
O sr. enxerga caminho para fazer uma grande união de centro-direita no País? Isso seria possível?
Em primeiro lugar, tenho desprezo por esses conceitos de centro, direita, esquerda. O que interessa ao povo é o resultado. O governo Fernando Henrique, tido como liberal ou de direita, fez muito pelo social. O primeiro governo Lula, tido como de esquerda, fez muito pelo empresariado. O rótulo gera preconceitos. De maneira eleitoreira, joga-se empregado contra empregador, pobre contra rico, homem contra mulher. Não pode. São forças produtivas que você tem de harmonizar. É preciso divergir nas ideias, e não no plano dos setores ou pessoal. E isso está vindo pelo exemplo de cima.
Essa união só vai surgir quando o lulismo e o bolsonarismo forem superados?
Não digo o lulismo e o bolsonarismo, mas quando a fórmula de pregação feita por eles se esvair. O ideal seria que mesmo estes candidatos dissessem ao outro: “Vou te respeitar e te chamar de vez em quando para conversarmos em nome do País”.
A atuação de Flávio Bolsonaro nos EUA contra o tarifaço atrapalha a diplomacia formal do Brasil?
Se ele estiver lá para pleitear a redução das tarifas e insistir para voltar ao sistema anterior, acho que fará um benefício para o País. Quem vai fazer isso não importa, se é ele ou a diplomacia. Todos deveriam unir-se em torno desse propósito.
O sr. fez uma consultoria para o Banco Master. De que maneira seu escritório atuou na intermediação de interesses da instituição com o governo do Distrito Federal e o BRB?
Fui contratado como advogado. Assim que deixei a Presidência, voltei a advogar, fazendo consultoria política e mediação de conflitos. Meu escritório foi contratado e recebi honorários por isso como advogado. Prestei essa assessoria e depois deixei de prestar, não deu resultado. Fiz alguns contatos na área financeira de São Paulo para verificar se encontrava o caminho, mas o caminho não foi encontrado. A minha consultoria restringiu-se a esse ponto.
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