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ITA desenvolveu a indústria aérea do Brasil

Criado há 76 anos, ITA está na origem da Embraer e da formação de engenheiros respeitados em todo o mundo

Por Carlos Eduardo Valim, O Estado de S. Paulo, 27/09/2026

 

O primeiro voo do caça Gripen F, em 28 de agosto, na Suécia, marcou mais uma etapa da parceria entre Brasil e Suécia na área de defesa. Mais de 350 engenheiros, técnicos e pilotos brasileiros participaram do projeto, que envolve transferência de tecnologia. Ao mesmo tempo, a Embraer vive um novo ciclo de expansão, com carteira de pedidos recorde de cerca de US$ 34,5 bilhões e perspectivas de avançar para aeronaves maiores.

Os dois movimentos têm em comum uma instituição criada há 76 anos: o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), ligado à Força Aérea Brasileira (FAB). Fundado em 1950, em São José dos Campos (SP), o instituto formou cerca de 9 mil engenheiros e ajudou a criar a base de conhecimento que permitiu ao Brasil desenvolver uma indústria aeronáutica competitiva.

“Não é qualquer país que teria 200 engenheiros formados capazes de serem exportados para aprender por dois anos na Suécia como fazer um caça de última geração, com muita tecnologia embarcada, voltar, internalizar o conhecimento e montar um avião. Só as grandes potências e o Brasil podem”, afirma Anderson Correia, presidente do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e ex-reitor do ITA.

A instituição foi idealizada pelo marechal Casimiro Montenegro Filho, que, após conhecer o Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos, defendeu a criação de uma escola de engenharia voltada à aviação. Em 1945, o professor Richard Smith apresentou o projeto que previa não apenas o ITA, mas também o Centro Técnico Aeroespacial (CTA).

Durante as duas primeiras décadas, os cinco primeiros reitores foram estrangeiros. Professores e engenheiros dos Estados Unidos e da Europa ajudaram a criar uma cultura acadêmica internacional e rigorosa. O ITA também manteve forte presença civil, apesar de estar ligado à estrutura militar.

Essa formação foi fundamental para o desenvolvimento do avião Bandeirante, projeto conduzido no CTA na década de 1960 por Ozires Silva, formado pelo ITA e futuro fundador da Embraer. O trabalho envolveu cerca de 300 pessoas e abriu caminho para a criação da fabricante.

“Apesar de todas as dificuldades, Ozires contou com uma equipe muito boa e também deu sorte de receber o apoio de militares de alta patente da época”, diz Manoel de Oliveira, ex-vice-presidente da Embraer e que trabalhou com Ozires por cinco décadas.

Além da aeronáutica, ex-alunos do ITA tiveram participação em áreas como energia, ciência, tecnologia e inteligência artificial. Entre eles estão o físico Rogério Cerqueira Leite, ligado à criação do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), e Silvio Meira, um dos fundadores do Porto Digital.

Hoje, a Embraer é a fabricante cujos aviões realizam mais voos nos Estados Unidos. No Aeroporto LaGuardia, em Nova York, um dos principais terminais de aviação regional do país, aeronaves da empresa representam cerca de um terço da frota em operação.

Para Correia, o resultado é consequência de um projeto construído ao longo de décadas. “O fato de o Brasil fabricar aviões e o surgimento da Embraer não foram obra do acaso. Houve uma orquestração, passo a passo, quase como um plano quinquenal ou um plano chinês.”

Agora, o modelo começa a ser levado para outras áreas e regiões. Em janeiro, foi lançada a pedra fundamental do novo câmpus do ITA em Fortaleza, na Base Aérea local. O projeto, de R$ 400 milhões, terá inicialmente cursos de engenharia de energia e de sistemas, e depois de biotecnologia.

Para Correia, a expansão deve preservar a lógica de formar pessoas antes de buscar projetos mais complexos. “O que se faz hoje vai trazer resultado daqui a 10 ou 20 anos”, afirma. “Precisa esperar maturar.”

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