Leão XIV completa 1 ano como papa e deve nomear 3 arcebispos no Brasil
Visto como mais discreto na comparação com Francisco, o americano terá o desafio de escolher os chefes de 3 importantes arquidioceses do País: São Paulo, Rio e Manaus
Por Edison Veiga, O Estado de S. Paulo, 08/05/2026
Quando o americano Robert Francis Prevost foi anunciado como Leão XIV, o novo papa da Igreja Católica, há exatamente um ano, muitos ficaram surpresos. Mas, se seu nome não era dos que costumavam ser listados como principais apostas para suceder ao argentino Jorge Mario Bergoglio (1936-2025), o papa Francisco, quem acompanha de perto a política da alta cúpula da Santa Sé já sabia da importância que aquele bispo nascido em Chicago, que havia construído carreira no Peru e rodado o mundo como líder da ordem dos agostinianos, ganhara nos últimos anos do pontificado anterior.
Prevost era desde janeiro de 2023 o prefeito do Dicastério para os Bispos – órgão na estrutura do Vaticano que coordena os 5,6 mil bispos, capilarizados em todo o planeta. De 8 de maio de 2025 para cá, se por um lado Leão XIV parece cada vez mais confortável no cargo, por outro as inevitáveis comparações com o anterior ressaltam uma personalidade mais contida, discreta, afeita aos protocolos – consequentemente menos midiática.
O sacerdote jesuíta James Martin, feito consultor do Vaticano por Francisco em 2017, editor-geral da revista jesuíta America Media, conta que, logo após o conclave, falou com um padre agostiniano próximo de Prevost, indagando como ele era. “Ele disse: Gentil, atencioso, espiritual, ponderado e um bom ouvinte. Todos gostam dele. Mas não é alguém fácil de pressionar. É muito firme quando precisa ser firme”, revela. “Acho que estamos vendo isso agora. Uma pessoa calma, inteligente, mas firme.” E Martin acrescenta: “Acredito que ele está indo muito bem”.
“É muito cedo para darmos definições”, diz o vaticanista Filipe Domingues, professor na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, e diretor do Lay Centre, também em Roma. “Mas ele atua de forma mais lenta. Gosta de jogar xadrez, enquanto o papa Francisco jogava boliche.”
O professor recorda que, enquanto o argentino havia sido eleito com a missão de reformar, e chegou “já sacudindo as estruturas” em um momento de profunda crise institucional na Igreja, Leão XIV entrou com a “casa, se não arrumada, com as coisas já no lugar”. “Agora começa a botar as peças no lugar, depois que o Francisco espalhou o quebra-cabeça”, analisa Domingues.
TROCAS NO BRASIL. No cenário brasileiro, o movimento de maior impacto neste início de pontificado foi a troca do chefe da Arquidiocese de Aparecida, o mais importante centro de peregrinação católica do País. No último fim de semana, assumiu o comando o arcebispo Mário Antonio da Silva, de 59 anos, sucedendo a Orlando Brandes, de 80, que se aposentou após uma década na função. “É uma diocese muito pequena, mas muito simbólica por conta do santuário”, diz Domingues. São só 19 paróquias, mas uma enormidade de romeiros – no ano passado, o complexo recebeu 10,5 milhões de pessoas.
Professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie, o teólogo e historiador Gerson Leite de Moraes comenta que a trajetória de Silva é um indicativo do perfil que Leão busca para postos importantes. Paulista de Itararé, o religioso foi bispo auxiliar em Manaus, bispo em Roraima e arcebispo de Cuiabá antes de assumir Aparecida. “Percebe-se uma atuação muito pastoral, com a ideia de viver com o povo. Quando esteve em Roraima, por exemplo, ele foi uma voz importante no apoio aos imigrantes venezuelanos. Também ergueu-se em defesa das causas indígenas. É um homem com o coração nas questões sociais.”
Pelo Código de Direito Canônico, um bispo, quando está prestes a fazer 75 anos, precisa apresentar um pedido de renúncia ao papa. Leão XIV tem à sua frente nos próximos meses o desafio de nomear os novos líderes de outras três arquidioceses brasileiras importantes, com a aposentadoria já prevista dos cardeais de São Paulo, Rio e Manaus.
O arcebispo Odilo Scherer deve encerrar sua gestão na maior arquidiocese do País, a de São Paulo, no fim do ano – está no cargo desde 2007 e fez 75 anos em setembro de 2024. Arcebispo do Rio desde 2008, Orani Tempesta chegou à idade-limite em junho de 2025. Ele deve ficar no cargo só até 2027. Conhecido como o primeiro cardeal da Amazônia, Leonardo Steiner fez 75 anos em novembro e em breve deve ser substituído em Manaus.
Para Moraes, até agora a atenção ao cuidado pastoral é o que une os bispos já nomeados por Leão XIV. Ele acredita que esta deve ser a preocupação do papa, com a experiência de quem comandou o Dicastério para os Bispos e, portanto, conhece bem o rebanho. O teólogo cita essa característicachave nos casos das nomeações do bispo Manoel de Oliveira Soares Filho, que assume a diocese de Castanhal, no Pará, em junho; Jefferson Santos Pinheiro, nomeado bispo auxiliar de Aracaju, capital de Sergipe, em março; e os dois designados como bispos auxiliares de São Paulo no fim do ano passado, Márcio Antonio Vidal de Negreiros e Celso Alexandre. “São bispos práticos, não midiáticos. Gente focada em cuidar de gente, não em ficar arrastando multidões.”
“Ele segue mais o protocolo”, diz Domingues. “E o protocolo existe para dar segurança, previsibilidade. Isso o protege como figura pública. Assim, ele pode focar em outras coisas, para ele mais importantes, questões estruturais.”
Para Domingues, isso ficou claro na recente viagem a países africanos – em abril, visitou Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial. Ele vê em Leão alguém que transmite mais aquilo que “o papa representa” do que ele como pessoa.
Do grupo ACI-EWTN de notícias católicas globais, o vaticanista Andrea Gagliarducci concorda. “Leão XIV não concentra a atenção em si mesmo; ele coloca, antes de tudo, a instituição”, afirma. Ele lembra que Leão XIV é o primeiro papa da história ordenado padre após o Concílio Vaticano 2.º – ocorrido de 1962 a 1965, com a missão de modernizar a Igreja.
PONTOS ALTOS. “Ele vai dar declarações fortes quando achar que precisa, como foi o caso agora com o Trump”, diz Domingues. O episódio, no contexto da guerra entre Estados Unidos e Irã, ficou marcado por trocas de farpas públicas entre o papa e o presidente americano Donald Trump. “O Trump meio que vestiu a carapuça e isso chamou a atenção para o que o papa estava fazendo na viagem à África. Em dado momento, ele falou: ‘Não quero debater com o presidente, quero voltar a falar sobre o que estamos fazendo aqui’.”
Ontem, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, visitou o Vaticano para reconstruir relações. Segundo o Departamento de Estado, os encontros abordaram a situação no Oriente Médio e ressaltaram “a forte relação entre os EUA e a Santa Sé”. Rubio e o papa trocaram presentes. Enquanto o secretário recebeu uma caneta feita de madeira de oliveira – a “árvore da paz”, segundo o papa –, Leão XIV ganhou uma bola de futebol americano de cristal que cabe na palma da mão.
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